O mito que dita que o menino nasce criador é uma ilusão. Nenhuma criação se dá sem um treino. Toda a formação estética implica um trabalho anterior com modelos, técnicas e repetição Parece que não passa mais pela cabeça de nenhum educador ser contra os computadores no processo educacional. As possibilidades dos recursos disponíveis como instrumento de comunicação e de informação são tão grandes que qualquer pessoa de visão perceberá a necessidade de investir pesado nas tecnologias informáticas. Por outro lado, é importante não ser ingênuo, e também ser capaz de enxergar, por trás desta nova onda educacional, muita ideologia, diversos interesses políticos e financeiros e, principalmente, uma grande ilusão de que o avanço tecnológico irá resolver os principais problemas de aprendizagem. Com efeito, muitos governantes acreditam que esses novos recursos didáticos irão nivelar as diferenças sociais, ajudar na educação dos mais desfavorecidos, preparar jovens para uma atividade profissional promissora e, a longo prazo, inclusive ajudar a poupar dinheiro na escola, dispensando uma parte dos professores. Outras vezes são os informes oficiais ou os artigos sobre a tecnologia da informação na educação que estão cheios de clichês sobre a “relevância” e a “modernidade” das novas máquinas na sala de aula, ou sobre sua importância para alcançar a verdadeira “autonomia” dos alunos. Entretanto, não costumam referir-se às consequências de longo prazo causadas por esses recursos na vida dos alunos, e muito menos aos resultados para o desenvolvimento do pensamento da criança. Por fim, são muitas vezes alguns filósofos e psicólogos da educação os que possuem uma visão um tanto distorcida da realidade dos alunos ao acreditar que o computador irá desenvolver o gênio criador que estaria latente em toda a criança, e que, ao ser libertada dos estudos sistemáticos, ela poderia por conta própria aprender com muito mais motivação e proveito. Será real isso? Erling Dale, um pesquisador sueco nessa matéria, critica o método que assume ser mais produtivo dar rédea solta aos impulsos criadores dos alunos, deixando-lhes liberdade para desenhar, pintar, etc. Segundo Dale, tal modelo é falso, pois quando a criança realiza algum trabalho nessas condições, ela não produziu qualquer obra de arte, mas apenas provas de uma motricidade não desenvolvida. Caso não seja ajudada a desenvolvê-la aprendendo novas formas de expressão, passará a pintar na única forma que sua limitada capacidade conceberá, estancando seus dotes artísticos. Alinhando-me ao estudioso sueco, sou da opinião de que a pedagogia centrada no aluno, dando-lhe uma liberdade praticamente absoluta para trabalhar e pesquisar com o computador, se apoia numa representação negativa da aprendizagem e do conhecimento. O mito – transmitido desde Rousseau – que dita que o menino nasce criador é uma ilusão. Nenhuma criação se dá sem um treino. Toda a formação estética implica um trabalho anterior com modelos, técnicas e repetição. O conhecimento em geral somente se adquire com trabalho duro e esforço perseverante. Se estudarmos as biografias dos artistas conhecidos, veremos que foram muito poucos os que mostraram talento artístico para a arte e alcançaram um alto nível de destreza sem ajuda de ninguém. Acredito que, se nós educadores permitirmos aos alunos escolherem o que vão estudar via mundo digital, estaremos dando carta branca para que aprendam muito menos. Estaremos produzindo jovens que se divertem bastante no processo educativo, mas que se comunicam pobremente, tornando-se pouco reflexivos, dispersos e consumistas. A escola sempre foi o momento privilegiado para que o jovem tivesse um contato mais profundo com a literatura, a história, a geografia, a filosofia. Mas, em relação ao tempo e espaço necessários para a reflexão e interiorização dos valores, o computador por vezes mais atrapalha do que facilita, pois tudo isso exige o esforço de uma leitura meditada, pausada e debatida, o exato contrário do que um mero clique de mouse proporciona. Enxergar no computador a panaceia educacional é um grande perigo. A moda da tecnologia de informação na sala de aula e em casa somente será útil quando tanto os professores quanto os alunos tiverem bons conhecimentos prévios das respectivas matérias, fruto de muita leitura, do estudo pausado e do conteúdo devidamente retido. Quando aprenderem a relacionar as diversas disciplinas e a pensar logicamente. Caso contrário, a nova pedagogia informática poderá estar favorecendo apenas uma nova elite intelectual que, como sempre acontece, englobará uns poucos que, por um motivo ou outro, conseguem aprender de verdade por conta própria. Publicado por João Malheiro na Gazeta do Povo a 27/2/11
 É preciso abrir-se a alternativas inovadoras que de alguma maneira façam ressurgir novas motivações educacionais na comunidade escolar. Perder o medo de ser menos ideológico e mais realista. Como consultor educacional, torna-se cada vez mais comum para mim ter de responder a inúmeros pais sobre as vantagens e desvantagens de determinado modelo escolar. Parece que paira no horizonte social certo descontentamento pelo que é oferecido na comunidade escolar e por isso é natural que os responsáveis pela educação comecem a buscar novas alternativas. Mas perguntemo-nos: o que estará incomodando esses pais? Há alguns anos era a péssima qualidade do ensino, depois apareceram problemas de disciplina, bulliyng, drogas, estresse dos professores. Hoje, outras questões muito mais delicadas parecem inquietar os responsáveis, como ideologias sobre novos tipos de família, de sexualidade ou de orientação sexual; imposições absurdas com relação à boa autoridade e à disciplina. Enfim, tópicos bastante controvertidos vão sendo introduzidos nos currículos de vários centros de ensino e impostos em cartilhas às crianças desde muito cedo, causando depois profundas deformações em suas consciências. Parece natural, portanto, que algumas famílias que querem o melhor para os seus filhos comecem a acordar para o perigo que se avizinha e se mobilizem em busca de novas modalidades de ensino que de alguma maneira preservem os seus valores humanos e os seus ideais transcendentes. Esse direito dos pais de escolher com prioridade o gênero de educação que querem para os seus filhos está garantido na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Mas na hora de escolherem, muitas famílias sentem ainda hoje o autêntico monopólio e controle estatal, com um evidente viés ideológico. É uma pena! Sou da opinião de que somente quando as autoridades educacionais, em todos os seus níveis de ensino, começarem a compartilhar com a sociedade o enorme peso de acharem soluções para a qualidade do ensino, será possível vislumbrar as tão sonhadas melhorias a médio e longo prazo. Quando me consultam sobre as vantagens e desvantagens do homeschooling, da educação diferenciada por sexo, das charter schools – modalidades escolares que vão sendo experimentadas com relativo sucesso já faz várias décadas em países desenvolvidos –, minha resposta é sempre a mesma: essas formas dependem das condições dos pais, dos professores, dos filhos, da comunidade, da cultura para dar certo ou não. Em educação não deve haver padronizações. Nunca se poderá tratar de forma igual as crianças desiguais, mesmo numa família com diversos filhos. Cada um é único e tem de ser ajudado a encontrar o caminho escolar que melhor o realize. Portanto, é importante que o governo enxergue que poderá ser muito salutar oferecer ao sistema educacional mais modalidades de ensino que de alguma maneira proporcionem novos remédios para tratar as atuais doenças educacionais, cada vez mais multifacetadas. Examinemos alguns exemplos concretos: o homeschooling. Em geral, as famílias que adotaram esse modelo com sucesso apresentavam características bem definidas: muitos moravam longe dos melhores centros de ensino, tinham vários filhos, comungavam princípios éticos e valores humanos bem definidos, possuíam níveis culturais e econômicos razoáveis, os pais trabalhavam dentro ou próximos do lar. Os resultados acadêmicos, principalmente nos EUA e na Inglaterra, foram melhores que os das escolas regulares, fossem elas públicas ou privadas. As consequências no aspecto do desenvolvimento psicossocial dos alunos, por mais que algumas teorias desaconselhassem o modelo, também surpreenderam. No Brasil, ficaram famosos alguns casais que se aventuraram por essa via educacional e os resultados apresentados foram semelhantes. Infelizmente, não receberam o apoio do governo que se deveria esperar. Averiguemos a educação diferenciada por sexo. Superados os preconceitos iniciais, os resultados científicos têm sido positivos. Segundo pesquisa empreendida por Cornelius Riordan, pesquisador americano da educação diferenciada por sexo, tal modelo se mostra uma alternativa educacional que eleva consideravelmente alguns índices de avaliação da qualidade do ensino, como aquisição cognitiva; comportamento relacional; desenvolvimento psicossocial; controle do ambiente escolar; atenção e concentração em sala. Para que essa forma de educação tenha sucesso, os pais precisam ser mais comprometidos com a educação e querer envolver-se efetivamente, dedicando mais tempo na própria formação integral, para que família e escola estejam durante todos os dias da semana em busca dos mesmos ideais. Podemos concluir que está na hora de o Brasil quebrar seu “muro de Berlim” educacional e encarar essa urgência educativa com um espírito mais desbravador. Artigo publicado por João Malheiro na Gazeta do Povo a 30/1/11
 Se as férias são essenciais para adquirir ou recuperar uma boa saúde física, psíquica e espiritual, elas também poderão ser decisivas para fortalecer a saúde mental dos jovens e dos não tão jovens Em seu livro Ética a Nicômaco, Aristóteles afirmava que, para educar bem uma pessoa, era preciso capacitá-la para que saiba amar o que é amável e odiar o que é aborrecível. Indicava que, para vencer esse desafio, era necessário avançar em três campos no processo educacional: o incremento do conhecimento; o desenvolvimento de aptidões intelectuais e da razão prática, o que permite escolhas morais acertadas; e, por fim, o incentivo à convivência familiar e social para a consolidação de atitudes e a interiorização de valores que dão sentido à vida. Durante o período escolar, caso se tenha o privilégio de se estudar numa escola que busque a formação integral dos pais, professores e alunos, os dois primeiros campos são, em princípio, satisfeitos. Porém é provável que o terceiro aspecto – a convivência – fique a desejar. A obrigação dos pais de trabalhar o dia inteiro, as inúmeras tarefas escolares dos alunos e seus cursos extraescola, a tendência dos jovens a ficar em casa “blogados” na internet 24 horas por dia são alguns dos fatores que costumam prejudicar a socialização. Por isso, quando chegam as férias escolares, pais e educadores devem sentir uma grande motivação para compensar essa carência, programando bem o tempo de férias de modo a conviverem de forma mais próxima e intensa. Estar juntos em família é uma grande fonte de riqueza humana. Todos têm particularidades ímpares que, somadas num ambiente de união e cordialidade, são sempre construtivas. Mas também se deve fomentar momentos de contato com o mundo da natureza, das obras- primas da pintura, da literatura, da música e do cinema. Essas artes ajudam a saber identificar o que se passa por dentro de cada um de nós e nos mostram sentimentos em que nos reconhecemos. Educar a afetividade é hoje uma das grandes prioridades educacionais. A afetividade é primordialmente subjetiva: o que sinto é o que me afeta em minha identidade pessoal. Quando penso ou decido algo, sempre produzo uma mudança em meu ser. Mas o que sinto não é garantia de que minhas ideias sejam verdadeiras e nem de que a decisão seja correta, porque os sentimentos são tudo, a partir do ponto de vista subjetivo, porém, em termos de objetividade, podem ter pouca relevância. Por isso é fundamental educar(-se) bem na objetividade, aprendendo de modelos de vida, atraentes e positivos, a direcionar nossa subjetividade. Sempre que contemplamos um Van Gogh, discutimos um clássico do cinema de Frank Capra ou relemos um Dom Quixote, nossas fibras existenciais tendem a se ajustar ao mundo real. Portanto é importantíssimo incentivar, principalmente em relação aos jovens e nesta época de férias, esses momentos culturais de reflexão que geram ideais altos, objetivos reais, que ajudarão a canalizar toda a afetividade para finalidades mais estáveis e a construir uma coerência interna. Outra “escola” de educação afetiva é a escola das amizades verdadeiras, pois muitas vezes as melhores obras-primas são as vidas dos amigos que nos rodeiam. Todos temos na memória pessoas que nos marcaram para sempre, pela sua generosidade, alegria, lealdade... Por isso, como é importante orientar com clareza a juventude para que saiba discernir os bons dos maus amigos! Infelizmente, as pessoas hoje tendem a valorizar mais as pessoas pelo que elas têm do que por aquilo que elas são. O conceito de amizade também se deteriorou com o utilitarismo. O velho ditado nunca se tornou tão evidente como nos dias atuais: “Diz-me com quem andas e te direi quem és”. Podemos concluir que, se as férias são essenciais para adquirir ou recuperar uma boa saúde física, psíquica e espiritual, elas também poderão ser decisivas para fortalecer a saúde mental dos jovens e dos não tão jovens. O comportamente ético está cada vez mais relacionado à saúde completa. Explico por quê. Numa sociedade que dispõe de um sistema de valores – coerente e consistente –, a saúde física e mental de seus cidadãos está significativamente bem mais protegida, porque se tem a sabedoria do bem e do mal. Por outro lado, se o que reina é a diluição dos valores ou sua tergiversação, como é hoje, os jovens ficam à deriva e os pais à mercê da sorte. Pensemos bem: o que é que costumam divulgar os meios de comunicação na época de férias para atrair as pessoas? Praias, viagens, micaretas, restaurantes exóticos, festas, colônias de férias... O importante é oferecer o máximo prazer corporal e o mínimo esforço, sem pensar em nada! Parece que existe uma máxima que diz: “Férias: não pense em nada!”. Se os pais soubessem que essa maneira de aproveitar as férias poderá estar produzindo personalidades vulneráveis com escassos recursos para enfrentar a realidade ou para se defender de tantas mazelas socais, como a depressão, ansiedade, anorexia, várias síndromes, distúrbios..., talvez repensassem duas vezes antes de autorizar ou planejar determinados programas de férias. Torço para que as férias sejam de fato, para todos, momentos de felicidade! Publicado por João Malheiro na Gazeta do Povo a 16/1/11
 Viver agradecendo deveria ser uma atitude habitual, uma disposição de vida e um modo de nos situarmos na existência Um ano está terminando, outro está por começar, e nestas épocas festivas é comum aproveitar algum momento de mais tranquilidade para refletir na própria vida. Algumas questões costumam emergir: Afinal, estou indo bem? E para onde estou indo? E minha família: está indo realmente bem? O que me (nos) falta? Como professor universitário, tenho o hábito de promover esta reflexão em sala de aula no último mês do ano. A metodologia utilizada é a discussão de dois clássicos do cinema, os quais recomendo a todos. São eles: Deste mundo nada se leva e Felicidade não se compra. Os filmes são dirigidos por um dos maiores diretores de cinema de todos os tempos: Frank Capra. Pablo G. Blasco, um dos renomados comentaristas desta sétima arte, salienta em um dos seus livros: “O cinema de Capra transborda bondade. É uma apologia do poder transformador que encerra o carinho humano. Sua crítica à hipocrisia, à corrupção, enfim, a todo o espectro da maldade humana, é por isso peculiar, construtiva, crítica sem violência, direta, franca, discretamente ingênua. São apelos ao coração, tentativas de desentocar os bons sentimentos, sempre presentes no interior do homem, mesmo submerso em falsidade e calejado no ódio”. É isso que tento realizar com os meus alunos no final de cada ano: em vez de dizer-lhes que deveriam ter alcançado melhores resultados acadêmicos, que deveriam ter crescido muito mais eticamente, que poderiam ter galgado patamares mais elevados de solidariedade e justiça. Tento desentocar neles sentimentos de agradecimento e retribuição por tudo o que receberam dos pais, dos professores, dos funcionários, dos colegas e, evidentemente, de Deus, ao longo do ano. Esse exercício do coração é uma das formas mais eficientes de despertar as pessoas para a realidade da condição humana de meras criaturas frágeis e dependentes dos demais. De encaminhá-las para os verdadeiros valores humanos. Viver agradecendo deveria ser uma atitude habitual, uma disposição de vida e um modo de nos situarmos na existência. Quando os alunos passarem a sentir-se efetivamente agraciados por uns bons pais (ou avós) que lhes deram todo o suporte para crescerem rumo à excelência humana, quando reconhecem os esforços de quase todos os professores em viver uma entrega diária para a sua formação integral ou dos funcionários da escola para que lhes mantenham limpos a sala de aula e o pátio, ou ainda quando (re)descobrem uma amizade real dos amigos, tenderão a despertar algumas fibras adormecidas do coração. E é dessa conscientização que nascerá a gratidão habitual. Por isso, quanto mais incentivamos o agradecimento, mais fomentaremos desejos de fazer algo pelos outros. Essa é a dinâmica verdadeira da felicidade. O núcleo sólido da nossa personalidade, o fundo de segurança íntima de que todos precisamos, consiste nessa dupla certeza: a de sermos amados e a de podermos amar. Quando formamos nossos alunos na ética da gratidão, estaremos também ajudando-os a crescer em humildade, virtude fundamental que falta hoje em tantos âmbitos educacionais. Descobrirão que tudo o que receberam é dom imerecido – família, talentos, capacidades, saúde, amigos, dinheiro, conhecimento, virtudes – e aprenderão a não se apropriar de méritos que muitas vezes não são deles. Um último aspecto que tento ensinar aos meus alunos é que aprendam a agradecer o que não lhes agradou ao longo do ano: não terem conseguido passar com as notas que gostariam, não terem ganho o campeonato da escola, não terem ido naquela viagem um pouco mais cara, o namoro que acabou, os amigos que perderam, a saúde que fraquejou. Quando aprendem desde cedo a sentir-se criaturas de Deus e não “pequenos deuses”, essa tarefa costuma ser muito mais fácil, pois intuem facilmente que Alguém lá em cima quis tudo isso para o bem deles, mesmo que nos custe entender por quê. Porém quando não são bem formados nesse aspecto, em geral por deficiências da educação familiar, costumam se sentir vítimas e sofrer muito. Infelizmente, essa é uma das chagas do materialismo atual: querer que a vida corra sempre conforme nossos sonhos e desejos, como autênticos “criadores”. As ações de graças nesses momentos serão sempre o melhor antídoto para aceitar as humilhações e viver uma vida mais real, mais cômica (rir de si mesmo) e muito mais rica do que aquela com a qual costumamos sonhar. Artigo publicado por João Malheiro na Gazeta do Povo a 29/12/10.
 O pré-requisito do bom educador é uma grande dose de desprendimento em toda a tarefa educativa. Assim o educando aprenderá a linguagem do amor no exemplo dos pais e professores.
Certa vez, um pai de classe média alta de um bairro nobre do Rio de Janeiro teve uma tentação que pode ocorrer a qualquer um de nós: descobrir se o seu filho único adolescente o amava mais do que amava a mãe. Um dia, chegando mais cedo em casa após o trabalho, cedeu à insídia diabólica, motivado possivelmente pelo recente presente de aniversário que dera ao filho, um videogame de última geração, não muito barato. Sentou-se na sala de estar junto com ele, compartilhou um refrigerante, e de repente lançou-lhe a seguinte pergunta: “E, então, filho, tire-me uma curiosidade: Você gosta mais da mamãe ou do papai?”. O filho, olhando-o profundamente nos olhos e respirando fundo, talvez buscando forças dentro de si para ser sincero, disse-lhe: “Quer saber mesmo, papai? Pois de quem gosto mais mesmo é do Jorge, o jardineiro do playground do prédio. Ele é quem fala comigo todos os dias, me ensina a plantar flores, me pergunta como estou indo na escola, torce comigo quando assisto na tevê ao Flamengo jogar...”.
Infelizmente, esse caso decepcionante poderia repetir-se cada vez mais nas famílias e nas escolas. Pais e professores passam a acreditar que amar o filho ou o aluno é simplesmente enchê-lo de alegrias materiais e afetivas e poupá-lo de exigências e sacrifícios. Assim, acabam ficando um pouco inseguros e perplexos na hora de escolher o caminho a seguir para ensinar o pupilo a amar, e acabam cedendo no mais fácil e imediato. Antigamente, a tradição cultural que se respirava nas famílias e no ambiente escolar ainda sustentava esses pais e professores no ensino do verdadeiro amor, mas hoje, com a perda total de referências éticas, aliada à ausência de bons modelos na sociedade, parece que se torna cada vez mais urgente que os educadores (re)aprendam o verdadeiro conceito de amar.
Amar é, segundo Aristóteles, querer o bem do outro pelo outro. E o que quer dizer querer o bem do próprio filho ou aluno? Quer dizer que os pais e os professores devem estar motivados a se sacrificar para torná-lo realmente feliz ensinando-o a amar, sem querer nada em troca para si.
É fácil deduzir que o grande pré-requisito do bom educador é uma grande dose de desprendimento em toda a tarefa educativa. Somente assim o educando poderá aprender essa linguagem do amor contemplada no próprio exemplo dos pais e professores, seja em casa, seja dentro da escola. Quando a criança percebe que os seus educadores se esforçam em tantas pequenas renúncias diárias e que buscam ativamente demonstrações de carinho e de respeito mútuo em seus relacionamentos, sua natureza ficará não só inclinada a imitá-los, mas sentir-se-á feliz quando conseguir vivenciar esse amor prático.
Os educadores devem ter consciência de que o “Frei exemplo é sempre o melhor pregador”. Quando a criança aprende antes as lições que também são vivenciadas pelos pais e professores, ela aceitará depois com maior facilidade toda a ação educativa, que na prática é quase sempre ensinar a amar os outros, por meio do caminho árduo das virtudes éticas. Aceitará, por exemplo, as correções, as exigências escolares, os castigos, as broncas, enxergando-os como formas corretivas para amar mais os pais, professores, e os próprios colegas de classe. Podemos intuir, portanto, que o melhor que os educadores podem dar aos filhos e alunos, mais que grandes manifestações de afeto superficial e efêmero, será sempre o próprio exemplo de doação mútua.
Mas uma questão fica no ar: como nós educadores adquirimos a força do amor, principalmente quando faltam as energias e isso se torna doloroso e humilhante? A tradição cultural de que falávamos apontava para a necessidade de, nestes casos de dificuldade, recorrer à oração. De alguma forma, ela nos dizia que ensinar a amar exigia ensinar ao mesmo tempo a rezar. Parece que esse costume diminuiu sensivelmente nas famílias e nas escolas. Por isso sou da opinião de que uma das formas mais pedagógicas de ensinar os jovens a amar é que nós educadores ensinemos também com o exemplo a olhar para o Céu. As crianças aos poucos irão compreendendo que este é o verdadeiro fundamento da nossa esperança e do nosso otimismo. Que, no fundo, no fundo, é esse o verdadeiro Bem que é preciso querer para todos...
Concluamos, portanto, que se o ideal de felicidade que todos almejamos é formar uma família feliz, uma família que “deu certo”, é preciso (re)aprender a linguagem do amor, que nasce da contemplação transcendente e das pequenas vitórias diárias no relacionamento. Quando isso é vivenciado também nas escolas, então nossos filhos estarão preparados para enfrentar as dificuldades da vida, porque descobrirão, por meio dos pais e professores, que o caminho para se conseguir a felicidade não estará numa vida cômoda, como se pensa hoje, mas num coração enamorado.
Artigo publicado por João Malheiro na Gazeta do Povo a 5/12/2010
 A edição deste domingo (21/11/10) do Frankfurter Allgemeine Zeitung, um dos maiores jornais da Alemanha, traz um artigo de subtítulo sugestivo: “A Alemanha está morrendo”. Chamado “Nós e as crianças”, o texto trata da queda ininterrupta da natalidade no país europeu, um fenômeno que já preocupa aquele governo há vários anos. Em 2009, nasceram 665.112 bebês, 17.402 a menos do que em 2008. Para entender bem o problema, é preciso ter em mente que o governo alemão sempre estimulou os pais a criarem muitos filhos, com diversas medidas econômicas, desde a obrigatoriedade de generosas licenças para gestantes e pais (pai e mãe) nos primeiros meses de vida dos filhos até um subsídio pago pelo Estado a cada filho nascido. Mesmo assim, a população segue diminuindo e envelhecendo. O que me pareceu diferente no artigo é a refutação que o autor Jan Grossarth faz dos vários chavões que buscam explicar a falta de pequenos alemães. Em primeiro lugar, o artigo ataca a tese materialista de que desejar ter filhos depende da capacidade econômica de criá-los. Ao contrário, fica demonstrado que, desde os anos 1970, quanto maior a renda familiar, menor o número de filhos por casal. O único e magro aumento é registrado entre os muito ricos, que compõem uma parcela pequena da população. Portanto — conclui o autor — querer ter filhos não é uma questão de nível e possibilidades econômicas. Talvez as políticas do governo, que promovem a criação dos filhos com incentivos materiais, não estejam atingindo o cerne do problema. Outro ponto que merece atenção de Grossarth é o argumento de muitos jovens, que não querem ter filhos para não prejudicar sua liberdade. O articulista pergunta ironicamente até que idade esta “liberdade” ainda deve valer. Ele destaca a oposição entre o desejo da maioria dos alemães, de terem um filho “com certeza”, e a ânsia por desfrutar da “liberdade” como se os 18 anos durassem para sempre. Também a ideia pessimista de evitar filhos para “não colocá-los neste mundo” cruel é examinada pelo autor. Ele indaga, de modo divertido, se o mundo acaso melhorará se estes casais “pensativos” morrerem sem deixar descendentes. Embora o autor não chegue a conclusões específicas, algumas ideias me vieram à cabeça ao ler seu artigo. A solução da charada da diminuição da taxa de fertilidade pode estar nas modernas possibilidades de planejamento familiar. Atualmente, pode-se controlar, com um grau razoável de acerto, a vinda ou não de uma criança. Para isso estão os preservativos, os métodos anticoncepcionais, a fecundação in vitro, etc. Passando por alto as questões morais envolvidas neste “planejamento”, o fato é que, se os filhos são “feitos sob encomenda”, a atitude “racional” a tomar antes de ter um filho é pesar os “prós” e os “contras”. É aí que está o ponto-chave. Parece que filhos não podem ser tão planejados como a compra de uma casa ou um carro novo. Afinal, eles são muito mais imprevisíveis e seu impacto é muito mais profundo do que de qualquer aquisição. No entanto, o homem “racional” não gosta que nada fuja de seu controle: ele quer ter o poder de decidir absolutamente quando “fará” um filho. Agindo assim, ele (ou ela) quase sempre verá uma criança como um elemento de desordem em seu mundinho organizado. Portanto, não quererá ter a criança. E, quanto mais rico for, mais cuidados tomará na gestão de seu patrimônio – logo, fugirá de um bebê consumidor de fraldas, pediatras e tempo. Se os filhos fossem um componente necessário, porém inesperado, do casamento, como sempre o foram, suas “desvantagens” não seriam tão pensadas, repetidas e exageradas. Provavelmente os países europeus não estariam passando pela catástrofe demográfica que enfrentam — e que já dá as caras no Brasil, para alegria de muitos “especialistas” que confundem baixa fertilidade com desenvolvimento. Por fim, o artigo traz um dado interessante: 60% dos homens alemães sem filhos não veem como tê-los pode mudar positivamente suas vidas. Já 70% dos homens alemães com filhos dizem que… tê-los mudou positivamente suas vidas!!! A conclusão é óbvia: os homens (mas também as mulheres, imagino) não tem a menor ideia do que significa ter filhos. Parece que, de tanto planificar nossa vida, acabamos correndo o grave risco de nos frustrar, num casamento vazio ou numa velhice solitária. Como o autor conclui: “Talvez nossa sociedade de produção tenha perdido a sensibilidade para a alegria que pode haver em observar a curiosidade com a qual uma criança descobre o mundo, quando está construindo castelos na caixa de areia, quando sonha com o mundo ou quando chora, porque está tão triste com o mundo como nós, cínicos, não podemos mais estar”.
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