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A história se repete como farsa, pontificava Karl Marx. Ou como tragédia, sustentam alguns cinicamente. Dentro das quatro linhas, entretanto, Marx decididamente não está com essa bola toda – sim, a História se repete!

Foi o que ficou comprovado com a peleja de domingo à tarde entre os selecionados do Centro Cultural e Universitário de Botafogo e a equipe de integrantes e amigos (e amigos dos amigos dos amigos) do Centro Universitário da Tijuca. As árvores e alambrados do Estádio Aeronauticão foram privilegiados com uma partida suada e disputada, na qual a seriedade e técnica do CCUB mais uma vez superaram o esforço tijucano (desta vez incrementado com diversos elementos peladeiros escolhidos a dedo pelo astuto treinador Sérgio).

A agremiação da Zona Norte até resistiu a seu destino habitual: após um bate-cabeças na zaga do CCUB, o atacante Guilherme (que jogava de preto, sem o uniforme azul oficial e deveria ter sido desclassificado!) apareceu livre na cara do goleiro Nara Jr., escolheu o canto e abriu o placar. Os surpreendidos CCUBenses mal se recuperavam do susto quando uma bola despretensiosamente alçada sobre a área encontra a cabeçada certeira de Guilherme, a defesa milagrosa do goleiro, a intervenção atabalhoada do defensor e o rebote fatal do atacante: 2 a 0 no placar, os tijucanos afrontavam o destino.

Após as substituições promovidas pelo técnico André Medrado, o panorama mudou, mas, antes que uma reação pudesse ser esboçada, mais um cruzamento da direita, mais um complemento inapelável, mais um gol. 3 a 0, a invencibilidade eterna do CCUB iria desmoronar?

Não! gritava à beira do campo o obcecado treinador – Não! respondiam passadas, chutes, dribles dos espezinhados atletas do CCUB. Perdida em sua superioridade ilusória e enfatuada, a Tijuca saiu do ritmo do jogo. Oportunidade aproveitada pelas contratações internacionais do CCUB: o titular da seleção colombiana Pastran, os irmãos ídolos japoneses Ikenami e Kazuo, e o veterano artilheiro português João Malheiro. E foi este último quem, numa bola perdida junto à linha de fundo, usou de toda sua experiência para, num toque sutil, encobrir seu marcador, o goleiro, o pessimismo e o sentimento de derrota, deixando a bola dormir no fundo da rede e a esperança renascer no fundo da alma: 3 a 1.

Desesperada, a Tijuca apelava: uma bola recuada para seu ameaçado goleiro Andrei pôde ser pega com a mão porque “ninguém havia combinado as regras”, no dizer do cartola Miyashita. Parece que ninguém tampouco havia “combinado” que os dois times deveriam jogar com o mesmo número de jogadores: após uma tempestade de substituições tijucanas, treze jogadores chegaram a estar em campo, contra onze honestos CCUBistas.

Mas tais vis artimanhas não prevaleceram: bola de João Malheiro para Gaian, bola no fundo da rede. Bola lançada para João dentro da área, bola no fundo da rede. A história cobrava seu respeito devido, o CCUB se erguia das cinzas, a Tijuca se desfazia em substituições. Em pânico, tal esquadrão resolveu trocar seus jogadores de sete em sete, causando o caos absoluto na equipe azul. Já o experiente e manhoso técnico Medrado adotou a tática pinga-pinga: a cada três minutos, um atleta do CCUB deixava o campo discretamente, substituído por um colega descansado. A estratégia cerebrina funcionou: enquanto a zaga, guarnecida pelos cães de guarda Saulo Said e Christian, se mantinha firme como uma rocha, e o meio campo alternava investidas com Pastran pela esquerda e Felipe pela direita, Malheiro, à frente, esperava por sua chance de cumprir a História.

E a História possui suas leis, suas normas e seus momentos, aos quais os pobres mortais da Tijuca não poderiam escapar: foi a História quem encontrou João Malheiro livre na esquerda do ataque, foi o destino quem amarrou os pés de seus marcadores, foi o sobrenatural quem empurrou a bola mansamente para as redes.

No banco de reservas tijucano, desesperado, um jogador se lamentava com o técnico: “Pô, Sérgio, vim de Olaria até aqui para perder?!”

Botafogo 4 a 3 na Tijuca, nas maquinações, nas trapaças e na pequenez humana. Pois o CCUB tem uma missão divina a cumprir: Invictus, invencibilidade eterna! Que venha a próxima batalha!

 
 
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Durante nossos anos no colégio, pode ter sido comum ouvir o mesmo chavão sempre que um novo professor se apresentava em sala de aula: “Eu sou professor, mas também aprendo com vocês.” Seja isto verdade ou não (na maioria de minhas aulas, acho que o professor só conseguia aprender novas formas de dar bronca), o fato é que a frase transmite uma visão da aula ideal, na qual o professor efetivamente dialoga com os alunos e também vai se formando, amadurecendo e crescendo.

Felizmente, meus cinco anos de experiência como catequista realizaram plenamente este desejo geral do professor. Preparar as crianças para sua primeira comunhão se mostrou uma maneira muito especial de praticar minha fé. Na verdade, acredito que tal oportunidade faria bem a muitas pessoas, especialmente os jovens, e inclusive aqueles que acreditam não possuir tanto conhecimento doutrinário assim para ensinar (estes costumam ser os mais sinceros, o que já é uma ótima qualidade num professor). Pensei em quatro razões para isso:

Em primeiro lugar, o trabalho do catequista faz com que ele passe a colocar em prática sua fé. Há um grande risco hoje de acreditarmos que a religião é algo puramente teórico, que preciso “conhecer” tanto quanto conheço uma matéria na faculdade ou a altura do Everest. Ou de relegarmos Deus a um plano secundário em nossa vida, recorrendo a Ele somente quando surgem as grandes dificuldades ou quando estamos a fim. Na catequese, precisamos explicar a alunos — que muitas vezes nos aparecem “zerados”, sem nenhum conhecimento sobre sua fé – as verdades e a moral básicas do Cristianismo. Isso acaba sendo um grande incentivo a que nós mesmos as vivamos. Quando ensinamos o sinal da cruz e recomendamos que o façam com frequência, nossa consciência nos dirá: “e você mesmo, faz o sinal da cruz ao levantar-se?” Quando vamos guiando nossos alunos delicadamente no caminho da oração, pode ficar claro, em nosso íntimo, que nós mesmos poderíamos rezar mais, inclusive por estas próprias crianças. Quando explicamos alguma parábola, percebemos na hora que ela também se aplica a nós.

Em segundo lugar, a catequese nos ajuda a viver a simplicidade, tanto em coisas materiais quanto em nossa cabeça. Os pontos básicos da doutrina cristã devem ser apresentados às crianças de modo simples, sem interpretações refinadas ou discussões supérfluas. Queremos que os alunos passem a amar Cristo, e isso para eles não é uma coisa difícil de compreender, nem requer grandes teorias. O bom catequista, portanto, vai adquirindo não só uma boa aptidão para comunicação e didática, como também uma capacidade de entender e expor sua fé de modo muito prático e ao mesmo tempo simples. Quando precisamos explicar o mistério da Santíssima Trindade para cabecinhas de sete anos, por exemplo, é preciso fazê-lo de um modo que mostre a coerência do dogma com o amor que Deus sente por nós, sem de modo algum tentar esgotar o mistério, nem tampouco procurar tirar seu caráter de mistério. A impressão que dá é que as perguntas das crianças vão “limando” nossos pensamentos, que sempre tendem a tornar tudo mais complicado. Na catequese, aprendemos a não complicar a fé, a não inventar o que já está previsto, a não substituirmos Deus pela nossa cabeça.

E o terceiro ponto que o professor aprende na catequese são as qualidades de liderança e empreendedorismo. O trabalho do catequista é voluntário, mas a atenção das crianças também é. É preciso saber cativar os alunos, descobrir como chamar-lhes a atenção e como conduzi-los à descoberta de um grande tesouro. Para tudo isso, o catequista necessariamente desenvolverá algumas das qualidades que definem um líder, pois ele será o guia (muitas vezes, sem o apoio dos pais) de suas crianças. Se a catequese é semanal, ele começará a se preocupar também durante a semana com a qualidade das aulas, a imaginar jogos que fariam sucesso entre os alunos, a encontrar cinco minutos de tempo livre para procurar uma imagem bonita que possa levar à aula... Na aula, ele se esforçará por acompanhar cada aluno, em saber como são suas famílias, em mapear seus defeitos, em medir seus progressos... E, por fim, perceberá que reza por seus alunos com a mesma intensidade com que costuma rezar por sua própria família. Tudo isto ajuda o catequista – muitas vezes um estudante de ensino médio ou da universidade – a entender que um bom líder, seja na turminha da catequese ou numa empresa, é aquele que melhor conhece seus liderados. Ele aprenderá, na prática, a conhecer de verdade o outro.

Por fim, termino destacando o quarto benefício que a aula da catequese produz no catequista: ele cresce em generosidade. Quando gastamos um tempo nosso com algo que não nos traz um benefício imediato, nossa capacidade de amar aumenta. Aquelas três horas semanais podem pesar num horário de estudo apertado, mas podem contribuir mais para o amadurecimento do catequista do que se passadas diante de um livro. O esforço do catequista por vezes não é apreciado: os amigos não o entendem, os pais dos alunos não se importam, os próprios alunos são bagunceiros e desrespeitosos. Por isso, tentei demonstrar nestes parágrafos como o professor pode ser o maior beneficiário das aulas, independentemente do quanto seja admirado (claro que é melhor quando nos valorizam, mas não é isto o que torna nossa aula boa).

A catequese é uma forma concreta de ser generoso. Fala-se muito em mudar o mundo, na injustiça do sistema, na maldade do homem, etc. O catequista tem a felicidade de saber que contribui efetivamente para mudar o mundo, despertando seus alunos para o amor de Deus, fazendo crescer neles as boas virtudes e dando-lhes o bom exemplo de vida cristã. Como não se trata de coisas materiais, parece ser bem pouco. Mas a catequese constitui um apoio inestimável para muitas e muitas crianças, por vezes até sua única fonte de educação moral e religiosa. Quantas dificuldades da vida não poderão ser vencidas com o apoio indestrutível da fé?


Rafael Barretto

 
 
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A edição deste domingo (21/11/10) do Frankfurter Allgemeine Zeitung, um dos maiores jornais da Alemanha, traz um artigo de subtítulo sugestivo: “A Alemanha está morrendo”. Chamado “Nós e as crianças”, o texto trata da queda ininterrupta da natalidade no país europeu, um fenômeno que já preocupa aquele governo há vários anos. Em 2009, nasceram 665.112 bebês, 17.402 a menos do que em 2008. Para entender bem o problema, é preciso ter em mente que o governo alemão sempre estimulou os pais a criarem muitos filhos, com diversas medidas econômicas, desde a obrigatoriedade de generosas licenças para gestantes e pais (pai e mãe) nos primeiros meses de vida dos filhos até um subsídio pago pelo Estado a cada filho nascido. Mesmo assim, a população segue diminuindo e envelhecendo.

O que me pareceu diferente no artigo é a refutação que o autor Jan Grossarth faz dos vários chavões que buscam explicar a falta de pequenos alemães.

Em primeiro lugar, o artigo ataca a tese materialista de que desejar ter filhos depende da capacidade econômica de criá-los. Ao contrário, fica demonstrado que, desde os anos 1970, quanto maior a renda familiar, menor o número de filhos por casal. O único e magro aumento é registrado entre os muito ricos, que compõem uma parcela pequena da população. Portanto — conclui o autor — querer ter filhos não é uma questão de nível e possibilidades econômicas. Talvez as políticas do governo, que promovem a criação dos filhos com incentivos materiais,
não estejam atingindo o cerne do problema.

Outro ponto que merece atenção de Grossarth é o argumento de muitos jovens, que não querem ter filhos para não prejudicar sua liberdade. O articulista pergunta ironicamente até que idade esta “liberdade” ainda deve valer. Ele destaca a oposição entre o desejo da maioria dos alemães, de terem um filho “com certeza”, e a ânsia por desfrutar da “liberdade” como se os 18 anos durassem para sempre.

Também a ideia pessimista de evitar filhos para “não colocá-los neste mundo” cruel é examinada pelo autor. Ele indaga, de modo divertido, se o mundo acaso melhorará se estes casais “pensativos” morrerem sem deixar descendentes.

Embora o autor não chegue a conclusões específicas, algumas ideias me vieram à cabeça ao ler seu artigo. A solução da charada da diminuição da taxa de fertilidade pode estar nas modernas possibilidades de planejamento familiar. Atualmente, pode-se controlar, com um grau razoável de acerto, a vinda ou não de uma criança. Para isso estão os preservativos, os métodos anticoncepcionais, a fecundação in vitro, etc. Passando por alto as questões morais envolvidas neste “planejamento”, o fato é que, se os filhos são “feitos sob encomenda”, a atitude “racional” a tomar antes de ter um filho é pesar os “prós” e os “contras”. É aí que está o ponto-chave. Parece que filhos não podem ser tão planejados como a compra de uma casa ou um carro novo. Afinal, eles são muito mais imprevisíveis e seu impacto é muito mais profundo do que de qualquer aquisição. No entanto, o homem “racional” não gosta que nada fuja de seu controle: ele quer ter o poder de decidir absolutamente quando “fará” um filho. Agindo assim, ele (ou ela) quase sempre verá uma criança como um elemento de desordem em seu mundinho organizado. Portanto, não quererá ter a criança. E, quanto mais rico for, mais cuidados tomará na gestão de seu patrimônio – logo, fugirá de um bebê consumidor de fraldas, pediatras e tempo.

Se os filhos fossem um componente necessário, porém inesperado, do casamento, como sempre o foram, suas “desvantagens” não seriam tão pensadas, repetidas e exageradas. Provavelmente os países europeus não estariam passando pela catástrofe demográfica que enfrentam — e que já dá as caras no Brasil, para alegria de muitos “especialistas” que
confundem baixa fertilidade com desenvolvimento.

Por fim, o artigo traz um dado interessante: 60% dos homens alemães sem filhos não veem como tê-los pode mudar positivamente suas vidas. Já 70% dos homens alemães com filhos dizem que… tê-los mudou positivamente suas vidas!!! A conclusão é óbvia: os homens (mas também as mulheres, imagino) não tem a menor ideia do que significa ter filhos.


Parece que, de tanto planificar nossa vida, acabamos correndo o grave risco de nos frustrar, num casamento vazio ou numa velhice solitária. Como o autor conclui: “Talvez nossa sociedade de produção tenha perdido a sensibilidade para a alegria que pode haver em observar a curiosidade com a qual uma criança descobre o mundo, quando está construindo castelos na caixa de areia, quando sonha com o mundo ou quando chora, porque está tão triste com o mundo como nós, cínicos, não podemos mais estar”.

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Reforçados com uma delegação gigantesca de jogadores selecionados a dedo, os cartolas do Centro Universitário da Tijuca chegaram ao Clube da Aeronáutica hoje pela manhã com sede de vitórias. Também, pudera: em toda a era dos jogos na Barra da Tijuca, a agremiação da Zona Norte nunca conseguiu um mísero triunfo sobre seus rivais mais capazes, o Centro Cultural e Universitário de Botafogo.

No entanto, o tão esperado encontro foi prejudicado por circunstâncias extracampo. Por uma falha de comunicação, o funcionário do Clube marcou a peleja para o insípido horário das 16 horas, o que só foi descoberto quando os atletas já se aqueciam para entrar em campo na
faixa tradicional das 10 horas. Em busca de uma solução, os futebolistas desesperados ainda foram expulsos de três campos em sequência (dois seriam usados para passagem de cavalos (!!) e o terceiro estava ocupado pela equipe de filmagem de um outro jogo). Finalmente, o instinto básico por futebol pôde ser saciado nas duas quadras de cinco contra cinco.

No entanto, graças à habilidade dos cartolas presentes ao evento, o campo acabou sendo liberado. Passava do meio-dia — horário irrevogável do fim das peladas desde tempos imemoriais. Consequentemente, vários jogadores se retiraram. Entretanto, alguns quiseram permanecer e desfrutar do gramado enfim conquistado. De forma malévola, foi arquitetado um Botafogo x Tijuca, com o primeiro time completamente desfigurado.

A dupla de zaga (André Luiz e Rafael Barretto) havia saído por causa do horário, assim como o meia-atacante Augusto Pessoa. Dos remanescentes, o goleiro João Carlos entrou sentindo uma lesão no pé, enquanto que o astro internacional do time Ricardo Pastran sofria com uma intoxicação alimentar. Mesmo lutando bravamente e conseguindo a suprema honra de um gol, a equipe da Zona Sul terminou derrotada por uma margem de gols com a qual os tijucanos sequer poderiam sonhar em condições honestas.

Fica claro, portanto, que este jogo não passou de um titulares versus reservas, sem nenhuma importância, sendo desconsiderado nas estatísticas do clássico. A invencibilidade de Botafogo foi abalada, mas permanece firme, contra as maquinações e truques dos adversários.

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by Rafael Barretto.