Foi o que ficou comprovado com a peleja de domingo à tarde entre os selecionados do Centro Cultural e Universitário de Botafogo e a equipe de integrantes e amigos (e amigos dos amigos dos amigos) do Centro Universitário da Tijuca. As árvores e alambrados do Estádio Aeronauticão foram privilegiados com uma partida suada e disputada, na qual a seriedade e técnica do CCUB mais uma vez superaram o esforço tijucano (desta vez incrementado com diversos elementos peladeiros escolhidos a dedo pelo astuto treinador Sérgio).
A agremiação da Zona Norte até resistiu a seu destino habitual: após um bate-cabeças na zaga do CCUB, o atacante Guilherme (que jogava de preto, sem o uniforme azul oficial e deveria ter sido desclassificado!) apareceu livre na cara do goleiro Nara Jr., escolheu o canto e abriu o placar. Os surpreendidos CCUBenses mal se recuperavam do susto quando uma bola despretensiosamente alçada sobre a área encontra a cabeçada certeira de Guilherme, a defesa milagrosa do goleiro, a intervenção atabalhoada do defensor e o rebote fatal do atacante: 2 a 0 no placar, os tijucanos afrontavam o destino.
Após as substituições promovidas pelo técnico André Medrado, o panorama mudou, mas, antes que uma reação pudesse ser esboçada, mais um cruzamento da direita, mais um complemento inapelável, mais um gol. 3 a 0, a invencibilidade eterna do CCUB iria desmoronar?
Não! gritava à beira do campo o obcecado treinador – Não! respondiam passadas, chutes, dribles dos espezinhados atletas do CCUB. Perdida em sua superioridade ilusória e enfatuada, a Tijuca saiu do ritmo do jogo. Oportunidade aproveitada pelas contratações internacionais do CCUB: o titular da seleção colombiana Pastran, os irmãos ídolos japoneses Ikenami e Kazuo, e o veterano artilheiro português João Malheiro. E foi este último quem, numa bola perdida junto à linha de fundo, usou de toda sua experiência para, num toque sutil, encobrir seu marcador, o goleiro, o pessimismo e o sentimento de derrota, deixando a bola dormir no fundo da rede e a esperança renascer no fundo da alma: 3 a 1.
Desesperada, a Tijuca apelava: uma bola recuada para seu ameaçado goleiro Andrei pôde ser pega com a mão porque “ninguém havia combinado as regras”, no dizer do cartola Miyashita. Parece que ninguém tampouco havia “combinado” que os dois times deveriam jogar com o mesmo número de jogadores: após uma tempestade de substituições tijucanas, treze jogadores chegaram a estar em campo, contra onze honestos CCUBistas.
Mas tais vis artimanhas não prevaleceram: bola de João Malheiro para Gaian, bola no fundo da rede. Bola lançada para João dentro da área, bola no fundo da rede. A história cobrava seu respeito devido, o CCUB se erguia das cinzas, a Tijuca se desfazia em substituições. Em pânico, tal esquadrão resolveu trocar seus jogadores de sete em sete, causando o caos absoluto na equipe azul. Já o experiente e manhoso técnico Medrado adotou a tática pinga-pinga: a cada três minutos, um atleta do CCUB deixava o campo discretamente, substituído por um colega descansado. A estratégia cerebrina funcionou: enquanto a zaga, guarnecida pelos cães de guarda Saulo Said e Christian, se mantinha firme como uma rocha, e o meio campo alternava investidas com Pastran pela esquerda e Felipe pela direita, Malheiro, à frente, esperava por sua chance de cumprir a História.
E a História possui suas leis, suas normas e seus momentos, aos quais os pobres mortais da Tijuca não poderiam escapar: foi a História quem encontrou João Malheiro livre na esquerda do ataque, foi o destino quem amarrou os pés de seus marcadores, foi o sobrenatural quem empurrou a bola mansamente para as redes.
No banco de reservas tijucano, desesperado, um jogador se lamentava com o técnico: “Pô, Sérgio, vim de Olaria até aqui para perder?!”
Botafogo 4 a 3 na Tijuca, nas maquinações, nas trapaças e na pequenez humana. Pois o CCUB tem uma missão divina a cumprir: Invictus, invencibilidade eterna! Que venha a próxima batalha!










