 Existem três modos de estudar ética: 1) ler textos sobre o assunto; 2) assistir a palestras sobre o tema; 3) estudar casos práticos, quer através de experiências reais, quer através de experiências fictícias mediante a arte (cinema, literatura, teatro). O CCUB está inaugurando a terceira modalidade, já que a primeira você pode fazer em casa e da segunda você pode participar no IMPA, na UERJ ou na UFRJ, assistindo às aulas de João Malheiro. Participe no sábado, dia 6, do primeiro encontro. Para debater a LIBERDADE HUMANA, assistiremos a 20min selecionados do filme NA NATUREZA SELVAGEM, de Sean Penn. Estrelam Emile Hirsch, Marcia Gay Harden, William Hurt, entre outros. No próximo mês assistiremos ao longa O MEU MELHOR AMIGO, para debater O VALOR DA AMIZADE.
 A desordem moral é hoje uma das fontes importantes da desmotivação no ensino/aprendizagem no ambiente escolar. Esta foi uma das principais conclusões tiradas durante a defesa de tese de doutorado que fiz há alguns dias, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Depois de longo estudo teórico sobre a motivação no ensino-aprendizagem, além de outro em paralelo sobre ética e a vivência das virtudes, pude inferir que o desenvolvimento harmônico das virtudes morais é, de fato, fonte de motivação. Que o desenvolvimento equilibrado das potências humanas – inteligência, vontade e afetividade – por meio do crescimento sistemático e seqüencial das virtudes da temperança, fortaleza, justiça e prudência, numa perspectiva aristotélica, gerará uma maturidade ética nos alunos favorecendo-lhes uma motivação correta – a que busca os verdadeiros valores e não os desvalores ou antivalores que muitos jovens buscam sem saber – e uma motivação completa: a que abarca a extrínseca, a intrínseca e a transcendental. Depois dessa fase de pesquisa teórica, investiguei a ressonância que essa hipótese encontrava nos atores da educação. Num primeiro momento, em um campo de estudo composto pelos alunos de uma escola de preparação de professores do ensino fundamental do Rio de Janeiro, examinei durante um ano e meio se os pesquisados estariam eventualmente dispostos a mudar seu comportamento e a aprender a vivência das virtudes a partir das intervenções éticas dos professores no ambiente escolar. Os resultados foram surpreendentes, demonstrando que os discentes estão desejosos de orientação ética, apesar das dificuldades representadas pela ausência da família e pela a pressão negativa exercida por certos meios de comunicação. Num segundo momento, aprofundando mais em quatro escolas de formação de professores para o ensino fundamental do estado do Rio de Janeiro, por meio de entrevistas a cinqüenta professores, foi constatado que sua grande maioria preocupa-se hoje fortemente em (re)aprender ética desejando em seguida compensar nos alunos a ausência dessa formação que deveriam ter recebido no seio familiar. Concluiu-se que, para a imensa maioria dos professores, é esta a principal motivação que ainda os sustenta a suportarem tanta desconsideração e pouco reconhecimento social. Por outro lado, ficou evidente que esta motivação transcendental dos professores em ensinar as virtudes está sendo enfraquecida pelos inúmeros fatores geradores de desmotivação extrínseca – baixos salários, pouco reconhecimento social e ausência consistente de plano de carreira – e de desmotivação intrínseca (falta de tempo e interesse em atualizar-se profissionalmente) a que estão submetidos. Já se pode prever, num futuro não tão longínquo, um autêntico “caos educacional” caso não surjam medidas que favoreçam melhores salários e um maior reconhecimento social desta classe, pois, com o tempo, cada vez mais deixarão de existir professores dispostos a um verdadeiro martírio que sofrem hoje nas escolas. Ou então, um caos que existirá porque o sistema educacional só conseguirá atrair aqueles que não têm as mínimas condições para exercer uma profissão que exija maior capacidade.
João Malheiro Doutor em Educação - UFRJ artigo original publicado na Gazeta do Povo
Alasdair MacIntyre, filósofo escocês bastante estudado atualmente quando se aprofunda no estudo da ética, no seu famoso livro Depois da virtude mostra as raízes históricas-filosóficas da fragmentação ética que contemplamos atualmente no atual cenário político brasileiro
Segundo o autor, se nos dispomos a examinar a fundo o que está acontecendo, perceberemos um reflexo de uma série de filosofias de pensamentos e de vida que afirmam que não é possível acudir a razões objetivas para justificar os princípios éticos que cada qual utiliza. Existe como que um acordo implícito de que os princípios são uma questão de preferências pessoais. Pretender outra coisa equivale a incorrer num crime de lesa humanidade que é impor uma ética ao vizinho. Estamos sob o império do emotivismo. Esta doutrina muito enraizada na nossa sociedade atual aponta que os juízos de valor e concretamente os juízos éticos são expressões de atitudes, sentimentos ou preferências. Quem profere um juízo ético usa uma linguagem pretendidamente impessoal e deve ocultar suas pessoais motivações. “Tal coisa é eticamente má” significaria, na realidade, “não quero que faças tal coisa”, porque não me agrada ou não me convém. Portanto a corrente emotivista postula que não existem critérios universais que sirvam para dirimir entre posturas éticas rivais. Portanto, todas as posturas são igualmente dignas e admissíveis.  Levando esta doutrina até às suas últimas consequências, perceberemos que os princípios éticos se tornaram como que uns pergaminhos isolados e desconexados – como pergaminhos recém-divulgados do Mar Morto – que as gerações vindouras os encontrarão em alguma caverna, talvez meio queimadas pela “irradiação nuclear”, mas não saberão interpretá-los. Elas estarão condenadas a ficar totalmente sem referências e à deriva.
A hipótese de MacIntyre é que a ética hoje socialmente imperante é um resultado de um afastamento da moral clássica para ensaiar outras fundamentações da ética, como o utilitarismo, pragmatismo, hedonismo, entre outros. “O emotivismo descansa sobre a pretensão de que cada tentativa, passada ou presente, de prover de justificação racional a moral objetiva fracassou de fato”, aponta o autor. Penso que este desacordo dos filósofos, desde os últimos séculos até aos nossos dias, teve conseqüências palpáveis para a nossa sociedade política atual.
Sou da opinião que é daqui que é necessário voltar a reconstruir a ética se queremos vislumbrar um futuro menos preocupante. É preciso voltar a ler os clássicos e a reerguer o edifício ético que foi explodido. A ética para os clássicos estava fundamentada na metafísica. Se tratava de um esquema com dois elementos básicos: primeiramente, uma noção clara da natureza humana e de seu telos (fim); e, em seguida, uma idéia precisa da virtude e de um conjunto de normas éticas – tipo “manual de instruções” do homem - deduzidas ambas dessa natureza humana. Esse é o verdadeiro fundamento do edifício moral. O único suporte que permitirá ao homem chegar ao seu fim que lhe corresponde por sua natureza que é a felicidade que todos almejam, mas muitos, infelizmente, de forma ilícita, contrariando inclusive sua própria natureza racional a maior parte das vezes.
No livro que nos referimos inicialmente o autor é incisivo quando diz que “a função essencial das virtudes é clara. Sem elas, sem justiça, coragem e sinceridade, o atuar dos homens não resistiriam ao poder corruptor das instituições”. Acredito que isto explica em grande parte o que está acontecendo com a crise política brasileira. Se queremos dias futuros melhor precisamos pensar se o nosso sistema educacional não precisaria voltar a buscar juntamente com a excelência intelectual, mas antes, a excelência ética, pois só desde jovem é possível sonhar com uma vida adulta madura e responsável. Mas como dar formação ética se poucos a têm de fato e ninguém dá o que não tem?
João Malheiro Doutor em Educação - UFRJ
 Cada vez mais, hoje em dia, pais e educadores de jovens e adolescentes se deparam com um problema sério, nessa passagem difícil da adolescência para a idade adulta: a grande indiferença para o aprendizado moral e para a vivência ética.
Por que, de forma cada vez mais intensa, os jovens passam dessa fase da heteronomia moral – fase de viverem o que lhe mandam - para a fase da autonomia ética, como dizia Piaget, de forma indiferente e desinteressada, como se suas escolhas não determinassem, em parte, sua realização e seu futuro? Segundo minha opinião, a resposta está não só pela desvalorização e/ou incapacidade familiar e escolar na educação moral, mas também no atraso dessa passagem que a própria família e a sociedade de consumo estão provocando, muitas vezes inconscientemente. Infelizmente, como diz Tony Anatrella, um renomado psicanalista francês da atualidade, uma das maiores contradições de nossa sociedade ocidental consiste em fazer crescer demasiadamente aos jovens e, ao mesmo tempo, animá-los a permanecerem adolescentes nas suas primeiras fases o maior tempo possível, com as facilidades de uma vida cômoda e sem dificuldades. Como se consegue isso? Desde a mais tenra idade, tanto os pais como as empresas de consumo, com seus poderosos veículos de comunicação de massa, ambos com intenções muitas vezes duvidosas e pouco éticas, procuram satisfazer as crianças com todos os equipamentos de diversão e comunicação, de forma que os "convençam" que ficarem em casa, no seu quartinho, como numa autêntica "bolha protetora de micróbios", é a forma de serem e viverem mais felizes e seguras, depois da escola. Constroem para eles uma "bolha material", onde há pouco espaço para o diálogo educativo e para as amizades. Quando chegam na idade de desenvolverem mais suas capacidades e habilidades intelectuais, as famílias as "entopem" de cursos e esportes extra-escolares, com a ilusão de que assim conseguirão uma maior realização profissional futura. Entretanto, como com a "bolha material" só conseguiram desenvolver uma ou duas amizades reais - virtuais muitas! - as crianças ao saírem de casa para esses inúmeros cursos sentem dificuldades enormes no relacionamento e muita insegurança. Como solução, muitas são como que obrigadas a transportarem de forma inconsciente essa bolha material: celular, mp3 player, livros... Tendo dificuldade para se comunicarem e descobrirem um "outro tu" nas pessoas desses cursos, criam uma nova camada nessa bolha que poderíamos chamar de “bolha psicológica". que as cegam para qualquer interesse que não seja individual, formando, quando muito, amizades superficiais e pouco duradoras e um desejo imenso de voltar o quanto antes para a sua bolha material. Por fim, ao ingressarem na vida universitária, onde existe habitualmente uma explosão intelectual, um aumento do conhecimento e uma liberdade falsamente ilimitada, os jovens ao não terem aprendido o certo e errado, por terem se relacionado pouco de verdade, sentem necessidade de criar uma ética própria para satisfazerem suas inseguranças, seus gostos e interesses que justifiquem suas ações, muitas vezes erradas. Criam a terceira camada da bolha chamada "bolha filosófica". Esta tríplice camada de bolhas é a que produz, depois, de uma enorme força-resultante centrípeta para si que, como num aspirador de pó, leva os jovens a realizarem tudo somente para alimentar um super-eu, gerando um subjetivismo irracional, uma ética sem fundamentos sólidos e um "coração bolha": não conseguem entender nunca o amor e a amizade verdadeiros. Não conseguem transcender como a sua natureza lhes exige. Conseqüentemente, sem transcendência, tudo o resto que lhes querem ensinar ou ajudar eticamente é indiferente para eles. Só lhes interessa o que pode satisfazer o seu egoísmo. Sem um destino, não se valoriza uma mapa rodoviário...
A única forma, quase sempre, de se abrirem para uma educação ética é esperar que a própria vida, com suas vicissitudes e tragédias, se encarregue de furar a bolha ou então que um amigo os ajude a repensar na sua própria vida moral e descubram que foram criados para algo muito mais valioso.
João Malheiro Doutor em Educação - UFRJ Grupo de Pesquisa de Ética na Educação (UFRJ)
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