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A ciência da nutrição é hoje uma das atividades que mais ganha espaço e prestígio no meio acadêmico e profissional. O papel do nutricionista é cada vez mais
valorizado ao orientar nossos hábitos alimentares, ajudando-nos a priorizar os
aspectos da alimentação que são realmente importantes, levando-se em consideração as características e necessidades de cada pessoa. Sabe-se que a
obesidade é muitas vezes consequência de vários fatores associados, inclusive de desequilíbrios nutricionais, ou seja, excessos e carências de nutrientes e, portanto, jamais será resolvida unicamente pela simples restrição na ingestão de calorias. Mais do que não comer, essa ciência tem descoberto que o que realmente importa é comer inteligentemente, evitando, por exemplo, misturar carboidratos com proteínas e alimentando-se de forma mais espaçada ao longo do dia.

Entretanto, por mais que a ciência alimentar avance na parte teórica, a dificuldade para depois colocar em prática essas orientações nutricionais é enorme, ainda mais se ampliada pela pressão cultural. Efetivamente, muitos hábitos alimentares sabidamente nocivos para a saúde – relacionados a fast food, churrascarias, rodízios de massas/ pizzas, sorveterias requintadas, excessos nas sobremesas,
refrigerantes nas refeições, entre outros – são estimulados pelas indústrias do setor, as quais, por meio de experientes técnicas de marketing a serviço de suas ânsias capitalistas, destroem propósitos bem intencionados de mudanças de hábitos alimentares. Em geral, a fraqueza humana cede rapidamente à satisfação de prazeres fáceis, ainda que sejam inconvenientes.

Essa mesma dialética pode ser ampliada para muitos outros prazeres humanos, como o sexual, o da diversão, o da vaidade, o do conforto, o de poder. Vejamos alguns exemplos. É cada vez mais comum descobrir patologias ligadas ao sexo desvairado, mas o homem pouco tem perseverado em sua prática responsável. A psicologia infantil tem denunciado consequências nocivas para o ensino-aprendizagem devido
ao excesso de horas de tevê e de internet, mas muitos pais preferem deixar as crianças divertindo-se sem controle nesses veículos de comunicação. Portanto parece que, apesar da ciência continuar avançando na descoberta da verdade sobre o homem, este não consegue progredir na mesma proporção do ponto de vista ético.
Qual seriam as causas dessas incoerências?

Acredito que a resposta para essa indagação esteja na ciência ética, que aponta a diferença entre a razão teórica (abstrata) e a razão prática. A primeira potencializa a inteligência para a descoberta dos princípios vitais que nascem das finalidades das ações – por exemplo, é bom ser sóbrio – enquanto que a razão prática, apoiada nesses princípios, vai julgar e decidir a conveniência das ações práticas concretas que levarão a alcançar tais fins. Seguindo com o exemplo anterior, ela verificará se, em determinada circunstância, tal pessoa
deverá/poderá tomar ou não certa bebida alcoólica para se manter sóbria tendo em vista os outros e ela mesma. Essa virtude intelectual – a qualidade que facilita agir sempre dessa forma – é chamada de prudência. Mas existe ainda um terceiro movimento interior na dinâmica das virtudes. Não basta uma pessoa querer ser sóbrio (intenção) e identificar os meios para sê-lo (meios práticos concretos
para alcançar a virtude) se depois não é capaz de renunciar àquilo que lhe resulta atrativo, mas que dificulta a sobriedade: essa é a virtude moral da temperança.

Infelizmente, a palavra “renúncia” parece ser hoje uma palavra proibida. As pessoas têm uma impressão subjetiva, mas errada, de que, ao renunciar a alguma coisa prazerosa, algo lhes rouba sua própria liberdade. Entretanto, muitas vezes essas pessoas não percebem que todas as boas escolhas trazem como consequência uma renúncia a outras alternativas, que também eram prazerosas, mas cuja renúncia depois se percebe que valeu a pena. O segredo está em aprender a escolher aquilo que é realmente mais prazeroso e duradouro.

Sou da opinião de que, diante de um mundo hedonista/materialista, no qual reina a ética do prazer sensível como ilusão de felicidade, nunca foi tão importante valorizar a educação da temperança, tanto na infância quanto nas demais idades. O filósofo alemão Rhonheimer a define como “o aperfeiçoamento do apetite concupiscível (aquele que inclina ao prazer), fazendo com que esse apetite dirija os sentidos (olhos, paladar, tato...) a valorizar o que é realmente mais prazeroso, não permitindo que o homem seja enganado por eles”. É interessante
essa definição, porque a ênfase não é posta tanto na negação, na renúncia ao prazer, mas no aperfeiçoamento do apetite para o prazer material correto. Voltando a nosso exemplo inicial, a melhor maneira de evitar a obesidade e os problemas nutricionais está em aprender desde cedo a “comer inteligentemente” e a não ser enganado pelo mero bem aparente. Chamo esse exercício de ética da substituição. Por isso, uma boa mãe deve aplicá-la ajudando o filho a descobrir que é muito mais prazeroso brincar com os amigos na rua/playground do que ficar brincando comodamente no computador; uma boa professora precisa orientar seus alunos a experimentar a alegria de produzir e apresentar um trabalho escolar bem feito e demonstrar que vale muito mais a pena do que ficar deitado no quarto vendo tevê por horas a fio; um bom pai deve ajudar seu pimpolho a preferir ir com ele ver um pôr do sol do que ficar se escravizando na pornografia da internet.

Como vemos, a ética da substituição está muito longe da ética da repressão, da sublimação (Freud), da neurose. Pelo contrário, é a ética da afirmação! Desejo neste artigo que todos os educadores busquem os mesmos ideais de muitos bons nutricionistas atuais, de forma a orientar a razão prática de suas crianças a preferir claramente um bom “filé mignon” a montanhas insubstanciais de “algodão doce”. Tenho a certeza de que essa pressão interna que gera a virtude fará com que, aos poucos, mudemos a pressão cultural.

Artigo publicado por João Malheiro na Gazeta do Povo a 6/1/12.

 
 
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Numa sociedade que dispõe de um sistema de valores, a saúde física e mental de seus
cidadãos está significativamente bem mais protegida, porque se tem a sabedoria do bem e do mal.

É comum ouvir dizer entre educadores e psicólogos que a juventude do século 21
será muito diferente das gerações anteriores. O fato de já nascer“conectada” à
rede mundial parece determinar transformações humanas e sociais ainda imprevisíveis. A revolução tecnológica oferece vantagens de comunicação e de
informação que proporcionam à criança visão de mundo globalizada, opções de prazer e de lazer muito rápidas e formas de relacionamento mais dinâmicas. É evidente que a carga de informação que ela pode receber diariamente nem sempre contribuirá para a sua formação e sabedoria, pois sua capacidade de aquisição e retenção do conhecimento não se modificou com o crescimento da tecnologia. Ao contrário do que acontece no campo das ciências experimentais, no âmbito da educação não há possibilidade de semelhante acúmulo de conhecimento, pois a capacidade do homem de aprender começa sempre do básico e cada pessoa e cada geração deverão aprender pessoalmente os conteúdos das diversas ciências por meio do processo educacional. Igualmente no campo da moral, os valores do passado que nos chegam pela tradição não podem ser herdados geneticamente, mas têm de ser assumidos e renovados através de uma opção livre e pessoal, o que exige um esforço redobrado.

Outro aspecto que merece destaque são as mudanças no âmbito familiar. Diversos motivos sociais, econômicos e filosóficos foram pressionando os responsáveis pela educação a se afastarem de seus deveres formativos e a delegarem essa tarefa a outras entidades. Infelizmente, essa transferência da responsabilidade para terceiros não costuma ser muito eficiente. Dificilmente uma criança desenvolve
uma virtude e acredita num valor moral que aprendeu na escola quando essa formação não ecoa habitualmente na própria família. Nesse momento, os fundamentos éticos costumam ser abalados, e surgem confusões no exercício da liberdade, que trazem sempre transtornos físicos, psíquicos e morais.

O resultado dessas duas mudanças mais profundas – tecnologia e família – podem estar produzindo grandes alaterações afetivas e comportamentais nas novas gerações.

Supõe-se que os inputs sensitivos que uma criança recebe hoje são mais intensos e frequentes que outrora no passado. Se isso se comprova, parece lógico que ela precisa de muito mais cuidados e atenções do que antes. Ora, a criança sempre foi dependente de um adulto para orientar sua afetividade desenfreada, já que esta não goza de racionalidade. Assim, seria de se esperar que, agora, ela necessitasse de muito mais apoio da família. Entretanto essa relação, ao invés de ter crescido de forma proporcional, parece que caminhou no sentido inverso: quanto mais inputs sensitivos foram sendo provocados na afetividade da criança, menos a orientação familiar se fez presente.

O que se tem evidenciado em tantos estudos é que a omissão familiar tem sido substituída pela (des)orientação dos meios de comunicação. Na medida em que os modelos apresentados na tevê ou na internet, em ambientes de entretenimento como novelas, seriados e filmes, são de consumismo, infidelidade, sexo fácil e promiscuidade, a criança e o adolescente foram associando felicidade à conduta errada apresentada, transformando aquela postura antiética em estímulo a
imitar.

Diante dessa realidade, vale indagar se esses novos comportamentos apresentados pelos jovens estarão afetando o desenvolvimento correto da sua afetividade. Será que não há alguma relação entre essa exagerada carga sensitiva que os jovens estão recebendo e os desajustes psíquicos cada vez mais comuns entre eles: depressão,
solidão, timidez, diversas síndromes, insegurança, imaturidade?

Numa sociedade que dispõe de um sistema de valores, a saúde física e mental de seus cidadãos está significativamente bem mais protegida, porque se tem a sabedoria do bem e do mal. Por outro lado, se o que reina é a diluição dos valores ou sua tergiversação, é possível que essa desordem moral cause desordens de outros âmbitos, como doenças mentais de forma cada vez mais precoce.

Nessa mesma direção estão indo os recentes estudos da psicologia positiva. Os médicos estão descobrindo que é melhor potencializar o aprendizado das virtudes éticas como forma de prevenir algumas enfermidades e retardar a morte nas pessoas mais velhas. As investigações dos últimos dez anos asseguram que os benefícios
psicológicos e de saúde física são muito maiores numa vida cheia de sentido e com finalidades transcendentes, do que a que deriva de uma felicidade meramente material e voltada para si.

Concluo que os pais deveriam estar não só preocupados com a proteção física de seus filhos, mas tentar enxergar novos âmbitos nesses cuidados, que quando se descuidam são muito mais dolorosos.

Artigo publicado por João Malheiro na Gazeta do Povo a 18/12/11.

 
 
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Na famosa obra de Paulo Freire Pedagogia do Oprimido, o educador afirma que um dos pilares que devem nortear a comunicação educador-educando é a fé nos homens: “Fé no seu poder de fazer e de refazer. De criar e recriar. Fé na sua vocação de ser mais, que não é privilégio de alguns eleitos, mas direito dos homens”.

Alinhando-me com o pensamento do pensador pernambucano, sou da opinião de que esse é um dos fatores fundamentais para discernir a verdadeira vocação de educador. Quem não acredita que qualquer criança pode aprender, independentemente de suas condições sociais, econômicas e culturais, é melhor que procure outro caminho de autorrealização profissional. Evidentemente, podem existir fatores inibidores da aprendizagem, mas, se a fé na capacidade do aluno for mais forte que esses inimigos educacionais, sempre será possível encontrar alternativas otimistas que os superem.

Podemos dividir os inibidores que podem afetar o processo de aprendizagem em dois grupos: os de ordem macroestrutural e os de ordem psicopedagógica. Os primeiros podem ser um sistema escolar inadequado ao alunado; a ausência da boa autoridade do diretor e da autonomia escolar; a omissão dos pais na educação; disparidades entre as idades dos estudantes e os anos escolares; poucas perspectivas de vida dos alunos. Já os complicadores da aprendizagem de ordem psicopedagógica se encontram em possíveis deficiências, tanto por parte dos professores quanto dos alunos, nas três fases do processo de aprendizagem: aquisição, retenção e generalização do conhecimento.

Os inibidores do primeiro grupo são, com frequência, responsáveis pelo fracasso na aprendizagem em um grau muito maior do que os do segundo grupo, e são as principais fontes do desânimo do corpo docente. Mas perguntemo-nos: o professor ue vibra de verdade com a missão de educar e que tem fé na capacidade de todos os alunos de aprender, não poderá suplantar, pelo menos em parte, essas dificuldades da educação, que são mais exógenas, com alternativas mais endógenas? Sou da opinião de que isto é possível.

Comecemos pela aquisição do conhecimento. Obviamente, o pré-requisito sine qua non para que haja sucesso nesta fase é o colégio atrair um bom professor, isto é, alguém com verdadeira vocação docente. Quando esta existe, o professor, além de sentir a motivação intrínseca de aprofundar sempre mais no conteúdo de sua matéria e de encontrar formas inovadoras de comunicá-lo, tem um olhar antropológico correto e profundo. Sabe enxergar cada criança como única e irrepetível, com seus ritmos próprios, com temperamentos e afetos únicos, com virtudes a potencializar e defeitos a vencer, contando com estratégias de aprendizagem personalizadas. É muito recomendável que haja um recurso de comprovada eficácia em muitas escolas de sucesso: a chamada preceptoria, atividade de acompanhamento individualizado do estudante por um tutor, em períodos extraclasse, nos quais há oportunidade de conversar com cada aluno em separado, ensinando-lhe os modos de estudar especificamente para cada matéria, organizar melhor seus deveres escolares, esforçar-se por melhorar seu caráter etc.

Para potencializar a retenção do conhecimento, o bom professor e o bom aluno não poderão abrir mão de duas coisas essenciais: o esforço do estudo sério e a boa socialização. Por mais que, hoje, as possibilidades dos recursos de comunicação e de informação sejam enormes, não podemos nos enganar pensando que substituirão o homem — pelo menos os homens sérios. Está mais do que comprovado que a lição de casa composta de uma lista de exercícios das diferentes matérias, de níveis paulatinos de exigência, de leituras substanciais, de pesquisas bem orientadas, promove a retenção do conhecimento em grau muito maior do que a simples utilização de tecnologia.

Por fim, é preciso almejar que os alunos conquistem a terceira fase: a generalização do conhecimento. Que saibam relacionar o estudo com o mundo real. Que aprendam a associar as matérias entre si e a ter uma visão de conjunto. Que consigam a interiorização dos valores e dos princípios que os ajudará a tomar as decisões acertadas. Como conseguir todo este bonito ideal? Com exercícios constantes de reflexão e práticas culturais. Não existe nada que favoreça tanto a aprendizagem como a leitura dos clássicos.

Como vemos, soluções existem para que toda criança aprenda. O que falta, então? Talvez fé por parte de nossos governantes. Fé nos fim ou nos meios da educação? Opino que nos fim (aprender), porque quando este falta, nunca se quer os meios!

Artigo publicado por João Malheiro na Gazeta do Povo a 20/10/2011

 
 
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Precisamos em primeiro lugar, redescobrir nossa missão de professores como uma tarefa muito mais ampla que o mero ensino-aprendizagem de uma matéria específica

Acabo de retornar de uma experiência inédita que vale a pena testemunhar neste espaço: minha participação na Jornada Mundial da Juventude em Madri. Fui como religioso praticante, pesquisador educacional e guia turístico de 70 universitários. As sensações, percepções, emoções e insights foram as mais diversas, mas todas elas muito enriquecedoras e inesquecíveis. E o balanço final foi este: uma imensa esperança nesta nova juventude que está surgindo!

Críticos dizem que este evento foi mais uma experiência religiosa sem grande profundidade, em que jovens de 170 países aproveitaram a ocasião para viajar, fazer turismo, divertir-se, conhecer gente e terminar suas férias de verão ou inverno. Sou da opinião de que se tratou de muito mais do que isso: vimos uma demonstração de que a Igreja de Cristo mantém sua pujança e vitalidade, e que uma nova juventude está surgindo em nossa aldeia global.

Enquanto contemplava aqueles 2 milhões de jovens no aeródromo de Cuatro Vientos, alguns dados anunciados me fizeram pensar: 1.560.000 celulares estavam ativos no momento da tempestade de sábado à noite. 17 tendas eucarísticas com capacidade para mil pessoas foram instaladas para a exposição do Santíssimo nas margens desse imenso descampado, e pude testemunhar o fluxo de jovens durante todas as horas da madrugada para rezar, num revezamento quase que combinado, enquanto os demais dormiam ao relento, em seus sacos de dormir.

Os jovens que contemplava eram de todos os cantos do mundo, mas chamou-me a atenção, pelos traços físicos e pelas bandeiras enroladas nas mochilas, que muitos eram holandeses, franceses, dinamarqueses, austríacos, suecos, alemães, russos, chineses... todos com muito bom aspecto!

Enquanto os “anjos maus” provocavam raios, chuvas e furacões naquela noite mágica, talvez descontentes com o que viam, meus anjos bons também o faziam, mas de forma positiva na minha mente. Um imenso clarão relampejou: “Está nascendo uma nova geração de jovens!” Jovens que estão fartos da mentira do materialismo hedonista, de uma vida sem rumo e sem sentido, sem valores e sem ética. Jovens que estão descobrindo novas formas de se comunicar, entre si e com Deus, talvez enfraquecendo ou neutralizando uma mídia muitas vezes perversa. O verdadeiro Amor é a grande motivação desses jovens, não os namoricos efêmeros da balada de um sábado à noite... Permanecer ajoelhado num chão incômodo para adorar a hóstia consagrada numa noite tempestuo­­sa só é possível de forma livre e autônoma quando já se descobriu a transcendência da vida.

Tendo em vista esse clarão, penso que nós professores temos de estar preparados para essa nova onda que, mais cedo ou mais tarde, chegará ao Brasil. E o que podemos fazer? Parece-me que necessitamos refletir com calma na mensagem que o Papa deixou aos professores no El Escorial durante esta Jornada da Espanha. Seleciono o seu núcleo principal:

“Mas onde poderão os jovens encontrar estes pontos de referência numa sociedade vacilante e instável? Às vezes pensa-se que a missão de um professor universitário seja hoje, exclusivamente, a de formar profissionais competentes e eficientes que satisfaçam as exigências laborais de cada período concreto. Diz-se também que a única coisa que se deve privilegiar, na presente conjuntura, é a capacitação meramente técnica. Sem dúvida, prospera na atualidade essa visão utilitarista da educação universitária, difundida especialmente a partir de âmbitos extrauniversitários. Contudo, vós que vivestes como eu a Universidade e que a viveis agora como docentes, sentis certamente o anseio de algo mais elevado que corresponda a todas as dimensões que constituem o homem. Como se sabe, quando a mera utilidade e o pragmatismo imediato se erigem como critério principal, os danos podem ser dramáticos: desde os abusos de uma ciência que não reconhece limites para além de si mesma, até ao totalitarismo político que se reanima facilmente quando é eliminada toda a referência superior ao mero cálculo de poder. Ao invés, a genuína ideia de universidade é que nos preserva precisamente desta visão reducionista e distorcida do humano.”

Precisamos, portanto, em primeiro lugar, redescobrir nossa missão de professores como uma tarefa muito mais ampla que o mero ensino-aprendizagem de uma matéria específica. Temos de nos conscientizar com frequência de que esse conteúdo disciplinar deve ser apenas um veículo para que nossos alunos alcancem algo muito mais profundo, que é a verdade sobre eles mesmos e sobre o mundo que os cerca. Quando isso é feito com sabedoria, conquista-se o fim último da educação: a posse da verdadeira liberdade, que culminará num bom comportamento ético. E, em segundo lugar, nos urge essa tarefa, sempre difícil, de encontrar tempo para uma formação continuada nesses saberes éticos, que nem sempre, por diversos motivos, estão muito presentes em nossos estudos. Opino que somente dessa maneira nós professores estaremos preparados para trabalhar com a futura geração que se avizinha.

Publicado por João Malheiro na Gazeta do Povo a 12/9/11

 
A boa autoridade 08/17/2011
 
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A sabedoria é a grande qualidade de quem deve mandar, fruto da ciência e da experiência. Essa última não se origina somente dos anos de vida, mas do hábito de refletir em cima dos problemas e de encontrar as soluções verdadeiras e justas

Refletir sobre as características de um bom diretor de escola é um tema bastante complexo, mais ainda se analisarmos o ensino público em conjunto com o particular. Na verdade, a missão de governar essas duas categorias de instituições de ensino acaba, na prática, resultando em trabalhos bastante diversos. É sabido que as pessoas mais preparadas não querem ser diretores no ensino público, por falta de condições mínimas. Fatores como ausência de segurança pública; “desgastes” de relacionamento em todos os âmbitos, com consequências inclusive na saúde; vantagens salariais irrisórias; e falta de autonomia misturada à invasão de autoridade por parte do poder público e político, são os que mais pesam. Portanto, aqui, vamos enfocar o ensino particular, na esperança de poder contemplar o mesmo cenário no ensino público num futuro próximo. Perguntemo-nos então: qual seria a principal virtude de um bom diretor de escola?

A primeira qualidade é a capacidade de merecer a confiança dos seus subordinados, fruto da boa autoridade. Esta, também chamada de auctoritas, é um saber publicamente reconhecido. Ela se opõe à má autoridade, também chamada de potestas, que se caracteriza por ser apenas um poder (não um saber) publicamente reconhecido num cargo, mas com falta total de capacitação e habilidade para o seu exercício. Um bom diretor precisa ter a convicção de que só lhe obedecerão quando tiver a boa autoridade, e não uma mera potestade. Esta sempre gera autoritarismo, que normalmente é um sinal de fraqueza. Quando se faz presente a autoridade verdadeira, os subalternos veem no diretor alguém que sabe do que fala. A sabedoria é a grande qualidade de quem deve mandar, fruto da ciência e da experiência. Essa última não se origina somente dos anos de vida, mas do hábito de refletir em cima dos problemas e de encontrar as soluções verdadeiras e justas. Quando se manda com sabedoria, nasce no mandatário uma atitude de respeito pela liberdade dos demais: sabe expor suas ideias e opiniões sem as impor; sabe escutar os demais; valoriza a opinião alheia; fala bem e defende, sempre que possível, sua equipe; não se singulariza, buscando privilégios descabidos e injustos; é amável e alegre; sabe reconhecer quando erra, e retifica rapidamente, pedindo desculpas se necessário.

Outro aspecto fundamental para definir o perfil de um bom gestor escolar é saber governar colegialmente. Isto é, falamos do diretor que consegue estudar em conjunto com seus coordenadores e diretores pedagógicos os diversos assuntos e decidir democraticamente; que é capaz de delegar e distribuir com equanimidade e lucidez os diversos problemas escolares que vão emergindo na pauta; que afasta energicamente qualquer sombra de medo, mentira e vacilações no ambiente escolar, porque busca antes de tudo a verdade e o bem dos alunos.

Entre todos esses assuntos que devem ser estudados colegialmente, os prioritários são o ideário – conjunto de valores, virtudes éticas, princípios, objetivos educacionais que orientarão todo o trabalho pedagógico –, também chamado “Projeto Político Pedagógico”; e o regimento escolar – formas concretas de assegurar um bom ambiente escolar e as suas respectivas penalizações e procedimentos. Naturalmente, na concretização desses dois documentos norteadores da alma da escola, se o processo for realizado com respeito, buscando o consenso e, principalmente, objetivando o fim primordial da educação, que é a formação integral de pais, professores e alunos, a tarefa não será tão conflitante como habitualmente se imagina. Quando existe uma boa dinâmica de comunicação e transparência no ambiente escolar, de maneira que a maioria dos conflitos podem ser amenizados com um fácil acesso aos diretores por parte dos professores, pais e alunos, muitos problemas de relacionamento são mitigados. Um diálogo respeitoso quase sempre é fonte de verdade e de fraternidade.

Poderíamos acrescentar ainda que um bom “comandante da aeronave escolar” é aquele que sabe fomentar a ética do respeito. Esta gera habitualmente um diálogo amistoso e tolerante. Quando se parte, nesse diálogo, da premissa de que todos os homens querem ser felizes, fica mais fácil criar condições para buscar as saídas de problemas inicialmente espinhosos, ou para olhares inovadores na educação. É importante aprender a discutir e refletir juntos, sem se deixar dominar por ideologismos, aceitando as diferenças. A base deste diálogo é sempre a humildade intelectual e a moderação das paixões.

Por outro lado, é fato que um bom diretor terá de enfrentar alguns momentos difíceis. O “martírio” de ter de relembrar a dureza da verdade, cuidando da suavidade da forma ao falar, mas corroborado com o testemunho de uma vida coerente a esses princípios, sempre será doloroso, mas o ajudará a recordar que sua missão é de serviço. Quando os pais escolhem uma escola, estão confiando que a pessoa mais adequada para orientar e dirigir o seu filho é sempre o diretor. Quando essa confiança não existe, o melhor que os pais têm a fazer é procurar outro colégio.

Artigo publicado por João Malheiro na Gazeta do Povo a 15/8/2011

 
 
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Acredito que essas diversas paradas e caminhadas denunciam pessoas que, no mínimo, não se encontraram como seres humanos porque não lhes ensinaram como devem agir

Tem se tornado bastante comum nos últimos tempos observar em muitas cidades da nossa “aldeia global” paradas, passeatas, marchas de todos os tipos e feitios. Umas reivindicando direitos, outras comemorando vitórias e avanços e outras simplesmente querendo demonstrar força ou chamar a atenção. Pude participar de algumas, não tanto por compartilhar dos ideais apregoados, mas para pesquisar o que tais “massas” comunicam, de forma consciente ou não. Confesso que contemplar tais manifestações sociais me fez pensar bastante, do ponto de vista filosófico-educacional. Algumas indagações se levantavam enquanto observava o caminhar das multidões: será que as pessoas vislumbram, num médio e longo prazo, as consequências desses “direitos” a conquistar? Como é que todos conseguem ter tanta certeza de que será melhor realizar tais “consensos”? Por que tantos comemoram soluções simples a questões que parecem tão complicadas que nem os maiores especialistas se arriscam a tomar posição? Quantos desses milhares de simpatizantes de determinada causa já estudaram a fundo os prós e os contras?

As perguntas poderiam se multiplicar, mas acredito que já bastam para refletir sobre o que poderá estar acontecendo. Sou da opinião de que essas caminhadas podem ser um ótimo indicador do grau de insatisfação social e existencial. Que podem ser também um bom termômetro para medir o resultado dos últimos anos do nosso processo educacional. Em geral, para avaliá-lo se costuma usar alguns índices internacionais (Pisa) ou nacionais (Ideb ou Enem). Mas será que esses instrumentos são suficientes para avaliar também a “alma” da escola? Para auscultar como vai a formação integral do ser humano, como está seu grau de realização existencial? Sou da opinião de que não – mas creio que essas passeatas, sim! Elas podem ser um indicador de que muitas pessoas estão descontentes com sua própria natureza humana e estão querendo experimentar uma nova, com novas leis, novas famílias, novos deuses, novos prazeres, novos sexos. Mas por que estarão descontentes? Porque o homem só se torna verdadeiro homem quando se conforma com sua natureza. Já diz um velho princípio filosófico: “o agir segue o ser”. Também pode dizer-se desta forma: “o agir determina o ser”. Se o agir for correto, o ser do homem se sentirá feliz. Se for errado, ele se sentirá sem identidade. Portanto acredito que essas diversas paradas e caminhadas denunciam pessoas que, no mínimo, não se encontraram como seres humanos porque não lhes ensinaram como devem agir. Estão clamando para que os ajudem a ser pessoas felizes e com perspectiva de vida. Mas, para que isso ocorra, sabemos, precisam ser auxiliadas por pessoas que conhecem e acreditam em como deve funcionar a natureza humana. Esse deverá ser sempre o fim primordial da educação. Quando isso não acontece, a natureza do homem reclama e se vinga. É o que acredito estar acontecendo na nossa educação faz muito tempo.

Muitos educadores sabem que seu principal desafio no processo de ensino-aprendizagem com uma criança é fazer com que, no futuro, ela afirme, livre e conscientemente, sua própria natureza humana com suas respectivas leis e limitações. É esse o fim último da educação. Já dizia Píndaro: “Torna-te o que és”. Por isso, o bom educador sabe que o sucesso educacional foi alcançado se o educando enxergar racionalmente que a realização só virá quando, além do conhecimento científico e cultural, adquirir os princípios éticos e concluir que esse é o caminho da excelência humana. Por outro lado, quando o educador perceber que existe uma tendência cultural para a negação da própria natureza, pode concluir que fracassou como educador.

Estamos percebendo que o fracasso atual da nossa educação é muito mais profundo que a mera falta de aprendizagem escolar. Nós educadores estamos fracassando de forma muito mais dolorosa do que as pessoas imaginam. Mas por que isso nunca aparece nas prioridades educacionais do governo e nas grandes campanhas dos meios de comunicação? Por pura ignorância, no caso da imensa maioria. Por ideologia, para uns poucos, que acreditam numa visão meramente materialista da vida. O fato é que a desordem moral se instalou na nossa cultura nas últimas décadas e isso tem gerado pessoas sem caminho e sem rumo. Pessoas sem transcendência e sem amor. Pessoas sem Deus e sem sentido.

Nós educadores temos de mostrar às grandes multidões que elas precisam é reencontrar o seu Criador e o fim para o qual Ele as criou. Nos séculos18 e 19, Deus foi rejeitado, em prol da ilusão de pensar que assim se eliminaria a culpa e o homem seria por fim livre e feliz. Hoje percebemos que, desse modo, o homem tem de carregar sozinho o peso das suas misérias e faltas. E terá de absolver-se sozinho numa autorredenção, o que parece insuportável. Acredito que, mais do que querer experimentar uma nova natureza, é muito mais feliz buscar Aquele que quer tornar a natureza humana quase uma natureza divina.

Artigo publicado por João Malheiro na Gazeta do Povo a 24/7/11

 
 
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Não discriminar não significa ter de tolerar as mesmas ideias, gostos, sentimentos, opções sexuais, ideais políticos ou religiosos. Posso e devo discordar se penso diferente. Isso é democracia, isso é pluralismo

Como educador e professor de ética, tenho me preocupado cada vez mais com o ensino/aprendizagem de certos conceitos que, quando não assimilados de forma correta, podem confundir os mais superficiais. São as noções de tolerância, discriminação, verdade e opinião.

Na universidade me deparo com frequência, pela temática que ensino, com o enfrentamento em sala de aula. Uma vez ou outra explodem paixões juvenis, outras vezes escuto de forma indignada frases como: “O senhor está sendo muito intolerante com as suas opiniões”, “O professor está discriminando uma parcela da faculdade com as suas verdades”, ou reações parecidas. Confesso que necessito de grande dose de autodomínio e de inteligência emocional para compreender meus pupilos e, em paralelo, manter um diálogo respeitoso, vivenciando esses próprios conceitos. Acredito, portanto, que possa ser útil promover a reflexão sobre os temas acima elencados, para não sermos conduzidos a engodos midiáticos ou para nos prepararmos para futuros debates em diversos âmbitos educativos.

O sentido de tolerância que adoto é do filósofo Tomás de Aquino, que criou o conceito no século 13: “Tolerar é permitir a existência de certos males menores para não provocar outros males maiores e para não impedir certos bens maiores”. Tolerar é permitir de forma bastante justificada certos males menores, não autorizá-los. Existe uma diferença notável entre permitir e autorizar. Esse último é dar autoridade a alguém para que faça algo. No nosso caso, seria autorizar o mal e converter, por um poder arbitrário e pela “magia” da tolerância, o mal em bem. O autorizador, assim, tornar-se-ia corresponsável pelo mal. O que não seria ético. É preciso ser consciente de que, quando se é tolerante, o mal continua sendo mal na perspectiva de quem permite. E que, mesmo sendo tolerante alguma vez, nem sempre será possível tolerá-lo. Nesses casos é preciso ser intransigente com o erro e o mal, o que não é intolerância. Ora, numa sociedade em que a confiança na razão como meio para descobrir a verdade foi aos poucos dando lugar ao ceticismo, é fácil compreender por que as pessoas se confundem entre o bem e o mal.

No momento em que a força da razão é enfraquecida, e que o julgamento ético vira uma questão de sentimentos e preferências pessoais – fenômeno chamado pelo filósofo MacIntyre de emotivismo, em After Virtue – são compreensíveis as reações explosivas de algumas pessoas quando alguém lhes tenta mostrar, de forma racional, as diferenças entre o bem e o mal, como aconteceu entre mim e meus alunos. Eles se sentem como sendo invadidos por uma autoridade despótica, que se intromete em sua liberdade pessoal, ou pelo menos a cerceia. A sensação de desrespeito é real, pois falta a participação da razão e da vontade para moderar e direcionar esses “sequestros” emocionais para a reflexão. Os conceitos de intransigência e discriminação acabam se confundindo, o que é um grande erro.

Ser intransigente é defender a verdade que nos transcende. Significa manifestar o direito de discordar de alguém que apresente outra coisa como verdade, e, num diálogo respeitoso, expor uma argumentação diferente, com fundamentos sólidos e convincentes, de forma que ambos tentem honestamente vislumbrar um bem que os una. Portanto, uma atitude bastante distante da violência e da arrogância. Já ser discriminador é algo bastante diferente. Significa dar um tratamento desigual, seja favorável ou desfavorável, às pessoas em função das suas características raciais, sociais, religiosas ou de gênero. É um desrespeito à pessoa humana, quase sempre numa atitude física ou psicologicamente violenta. Naturalmente, é algo deplorável, que sempre será preciso combater. Entretanto, não existe discriminação de ideias nem de atitudes, somente de pessoas. Caso contrário, nenhum educador jamais poderia atuar em relação a seus educandos, corrigindo-os, moderando-os ou até castigando-os. Infelizmente, é exatamente essa mentalidade (corrigir como discriminar) que aos poucos vai entrando em nossas escolas, com consequências incalculáveis.

Como aponta a doutora em Filosofia Ana Marta González, “o respeito se dirige ao homem que eventualmente defende ideias opostas às nossas; a tolerância, às suas ideias” (“Las paradojas de la tolerância”). Portanto, não discriminar não significa ter de tolerar as mesmas ideias, gostos, sentimentos, opções sexuais, ideais políticos ou religiosos. Posso e devo discordar se penso diferente. Isso é democracia, isso é pluralismo.

E como conviverão em paz pessoas que pensam diferente? Como viver a tolerância, em casos como a eutanásia infantil, o nudismo, o livre exercício de religiões minoritárias? A resposta é complexa, mas a filósofa espanhola nos orienta: eticamente, com respeito. Politicamente, com três critérios: buscar a solução em que a maioria possa se abster; em que o prejuízo que se vá produzir nos outros seja o menor possível; em que a subsistência da sociedade esteja sempre garantida.

Artigo publicado por João Malheiro na Gazeta do Povo a 22/5/2011

 
 
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Se o verdadeiro artista é sempre um bom educador, podemos afirmar também que um bom educador é sempre um artista

É comum encontrar na literatura e no cinema a magia de alguns artistas que conseguem transformar uma pequena ou grande comunidade. Pode tratar-se de um pintor, um músico, um escritor ou um ator que, com a riqueza de sua interioridade, provoca autênticas conversões existenciais. Recentemente, assistindo a um filme dos anos 80 – A Festa de Babette – redescobri a enorme força que pode ter um coração apaixonado. O filme trata de uma cozinheira de um dos mais requintados restaurantes de Paris, que é forçada a refugiar-se num país vizinho devido a uma guerra civil. Ela se emprega como faxineira e cozinheira na casa de duas solteironas, filhas de um rigoroso pastor do século 19. Ali ela vive por 14 anos, até que, um dia, fica sabendo que ganhou uma fortuna na loteria. Ao invés de voltar à França e refazer a vida, ela pede permissão para preparar um autêntico banquete em comemoração ao centésimo aniversário do pastor, já falecido. No fundo, ela quer retribuir todos esses anos de acolhimento preparando algo que só a riqueza de seus dotes artísticos podia fazer. No final, sua generosidade a impulsiona a gastar todo o dinheiro. A felicidade de poder novamente demonstrar seus talentos a serviço do próximo conseguem recuperar não só seu sentido na vida, mas também a fraternidade daquela comunidade familiar que há muito tinha desaparecido.

Acredito que Babette consegue definir bem o que deve ser um verdadeiro artista: alguém que transmita uma interioridade rica através do talento que desenvolveu no campo artístico. Alguém que transmita amor quando atua bem naquilo que faz. Aristóteles já definia a arte como a reta razão do fazer. A capacidade de refletir uma série de valores em tudo o que se produz, os quais elevam os que estão ao seu redor a níveis melhores. Seu predecessor Platão já definia a beleza artística como a expressão da bondade. Ela proporciona ao homem um choque saudável, retirando-o de si próprio. Ela abre o seu coração e a sua mente e lhe dá asas, levando-o para cima.

Transportando esses conceitos para a educação, se o verdadeiro artista é sempre um bom educador, podemos afirmar também que um bom educador é sempre um artista. Quando ele realmente sabe e ama aquilo que faz, quando extravasa com vibração todo o seu conhecimento dentro de uma sala de aula e procura com todos os seus dotes artísticos e didáticos fazer-se entender e entender seus alunos, consegue em geral produzir várias autênticas “obras primas”.

Por experiência própria, sei que não é fácil, nas condições atuais, querer ser um artista educacional. As coisas efetivamente não estão fáceis em tantas comunidades escolares, principalmente nas mais desfavorecidas. As baixas possibilidades financeiras, o pouco reconhecimento social, as mínimas perspectivas futuras, riscos de todos os tipos parecem nos puxar para baixo para fazer-nos desistir. Por isso, arriscaria dizer que, nos dias que correm, para ser um bom professor é necessário ser um super artista. Ser alguém com talento e capacidade de superação muito acima da média. Para isso, é imprescindível alimentar-se de mais interioridade, que nasce quando investimos tempo em leituras substanciosas, reflexões profundas e pausadas, debates descontraídos com pessoas de valor, meditação diária e esforço por sermos melhor.

Um exemplo disto também pode ser visto num filme intitulado Escritores da liberdade. Tal filme se inicia com uma jovem professora inexperiente que começa a trabalhar em uma escola de ensino médio para uma turma de adolescentes considerados problemáticos. Ao perceber os grandes conflitos enfrentados pelos estudantes, a professora usa todo o seu poder criativo e adota novos métodos de ensino. Entrega aos seus alunos uns cadernos-diário para que escrevam sobre aspectos de suas próprias vidas, desde conflitos internos até problemas familiares. Indica a leitura de diferentes obras ricas em interioridade com o objetivo de que os alunos percebam a necessidade de tolerância mútua. No final, consegue que todos se tratem com respeito e tolerância e seus diários acabam sendo juntados em um livro.

Sei que existem muitos professores que tentam fazer coisas semelhantes. Uns têm mais sucesso do que outros. Mas acredito que o importante é estar sempre tentando fazer desabrochar esse artista que vive dentro de cada educador.

Artigo publicado por João Malheiro na Gazeta do Povo a 1º/5/2011

 
 
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Educar os jovens nas virtudes que direcionam a afetividade para os outros exige muita paciência dos educadores, além do próprio exemplo, que nem sempre é “exemplar”.

Num recente congresso de educação, após expor o tema “o papel das virtudes éticas na motivação escolar da criança”, recebi uma pergunta, em tom meio desafiador, de uma professora, sem dúvida bem-intencionada: “Quer dizer então que você quer voltar a ‘vestir’ nossas crianças com uma ‘camisa de força’ ensinando-lhes a prática das virtudes?” Com muito respeito e compreensão, respondi com serenidade à provocação, enquanto pensava para comigo: “Aqui está a expressão do medo atual dos pais, professores e educadores de ensinar as virtudes morais na família e na escola”.

No imaginário coletivo de muitos responsáveis pela educação, o conceito de virtude está associado a traumas, repressão, perda da liberdade e da autenticidade, tristeza, formatação e muitos outros sentimentos que a mistura da psicologia com filosofias modernistas se encarregaram de introduzir em nossa cultura. Por outro lado, nós, educadores atuantes, percebemos, a partir da perspectiva histórica que os anos dão, que ter deixado nossas crianças vestir a “camisa de força das próprias paixões irracionais”, que é o que acontece na prática quando não se educa nas virtudes, foi muito pior e escravizante. Os alunos estão em geral completamente desmotivados, falta-lhes capacidade de vislumbrar ideais mais valiosos, sofrem de desamor e solidão de forma precoce e por isso desrespeitam os demais. Estão imaturos para a idade, não sabem o que fazer com a afetividade desgovernada.

Diante desse contraste, é natural que muitos pais e professores se sintam confusos e inseguros. Por isso acredito que seja conveniente aprofundar em algumas ideias que esclareçam cientificamente como formar adequadamente a juventude de hoje.

A primeira é a seguinte: quem não foi educado nos bons hábitos de escolha (conceito de virtude) só terá uma liberdade aparente. Nossos vícios de preguiça, vaidade, egoísmo nos impedem de ver as coisas como realmente são e fazem com que certos aspectos nos pareçam tão atrativos que prevaleçam sobre outros de maior valor objetivo. Nossa sensação é de que atuamos com liberdade porque conservamos o controle de nossos atos, quando na realidade essa escolha procede de um defeito da liberdade, da incapacidade de ver as coisas em seu valor verdadeiro. Para ser autenticamente livre, o querer da nossa vontade deve proceder de um juízo correto sobre a realidade e se esforçar para que não seja desfigurado pelas próprias paixões.

Para que as escolhas sejam boas, é necessário um critério bem formado e interiorizado. Não basta escolher de forma automática, sem reflexão e de modo involuntário. E é importante recordar a todos os educadores que ninguém pode intervir nas escolhas de seus pupilos. São suas próprias decisões que os formam realmente. E não as escolhas dos outros, por mais que sejam boas – a não ser que os jovens, por um ato livre, as assumam depois. Naturalmente, são importantíssimas as presenças do pai e do professor para informar, iluminar, sugerir, fazer pensar. Mas formar realmente só será possível quando o educando repetir inúmeras vezes na prática o que se aconselha, depois de ter captado racionalmente que vale a pena. Portanto, o verdadeiro aprendizado das virtudes está muito longe da imposição ou da coação. Está próximo de incentivar o próprio esforço.

E quais as virtudes que devem ser ensinadas prioritariamente? Segundo alguns educadores, até os 7 anos de idade, a virtude da temperança deve ocupar um espaço privilegiado. É a virtude que aperfeiçoa e regula a tendência para o prazer desmedido. Limites na comida, conforto, diversão, na desordem material e temporal, entre outros, são alguns campos de luta. Depois dos 7 anos, outra virtude deverá ser incentivada: a fortaleza. É incentivar a capacidade de esforço e de sacrifício. Tudo o que seja incentivar o estudo mais ordenado, pequenos serviços na própria família, a busca por novas amizades, investimentos culturais mais exigentes, entre outros, são práticas comprovadamente salutares.

Educar os jovens nas virtudes que direcionam a afetividade para os outros (a temperança e a fortaleza) exige muita paciência dos educadores, além do próprio exemplo, que nem sempre é “exemplar”. Por fim, a ilusão de viver uma vida cheia de instantes de prazer parece à primeira vista mais feliz do que a vida prazerosa da virtude.

Texto publicado por João Malheiro na Gazeta do Povo a 13/3/11.

 
 
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O mito que dita que o menino nasce criador é uma ilusão. Nenhuma criação se dá sem um treino. Toda a formação estética implica um trabalho anterior com modelos, técnicas e repetição

Parece que não passa mais pela cabeça de nenhum educador ser contra os computadores no processo educacional. As possibilidades dos recursos disponíveis como instrumento de comunicação e de informação são tão grandes que qualquer pessoa de visão perceberá a necessidade de investir pesado nas tecnologias informáticas. Por outro lado, é importante não ser ingênuo, e também ser capaz de enxergar, por trás desta nova onda educacional, muita ideologia, diversos interesses políticos e financeiros e, principalmente, uma grande ilusão de que o avanço tecnológico irá resolver os principais problemas de aprendizagem.

Com efeito, muitos governantes acreditam que esses novos recursos didáticos irão nivelar as diferenças sociais, ajudar na educação dos mais desfavorecidos, preparar jovens para uma atividade profissional promissora e, a longo prazo, inclusive ajudar a poupar dinheiro na escola, dispensando uma parte dos professores.

Outras vezes são os informes oficiais ou os artigos sobre a tecnologia da informação na educação que estão cheios de clichês sobre a “relevância” e a “modernidade” das novas máquinas na sala de aula, ou so­­­­­­­­­­bre sua importância para alcançar a verdadeira “autonomia” dos alunos. Entretanto, não costumam referir-se às consequências de longo prazo causadas por esses recursos na vida dos alunos, e muito menos aos resultados para o desenvolvimento do pensamento da criança.

Por fim, são muitas vezes alguns filósofos e psicólogos da educação os que possuem uma visão um tanto distorcida da realidade dos alunos ao acreditar que o computador irá desenvolver o gênio criador que estaria latente em toda a criança, e que, ao ser libertada dos estudos sistemáticos, ela poderia por conta própria aprender com muito mais motivação e proveito. Será real isso?

Erling Dale, um pesquisador sueco nessa matéria, critica o método que assume ser mais produtivo dar rédea solta aos impulsos criadores dos alunos, deixando-lhes liberdade para desenhar, pintar, etc. Segundo Dale, tal modelo é falso, pois quando a criança realiza algum trabalho nessas condições, ela não produziu qualquer obra de arte, mas apenas provas de uma motricidade não desenvolvida. Caso não seja ajudada a desenvolvê-la aprendendo novas formas de expressão, passará a pintar na única forma que sua limitada capacidade conceberá, estancando seus dotes artísticos.

Alinhando-me ao estudioso sueco, sou da opinião de que a pedagogia centrada no aluno, dando-lhe uma liberdade praticamente absoluta para trabalhar e pesquisar com o computador, se apoia numa representação negativa da aprendizagem e do conhecimento. O mito – transmitido desde Rousseau – que dita que o menino nasce criador é uma ilusão. Nenhuma criação se dá sem um treino. Toda a formação estética implica um trabalho anterior com modelos, técnicas e repetição. O conhecimento em geral somente se adquire com trabalho duro e esforço perseverante. Se estudarmos as biografias dos artistas conhecidos, veremos que foram muito poucos os que mostraram talento artístico para a arte e alcançaram um alto nível de destreza sem ajuda de ninguém.

Acredito que, se nós educadores permitirmos aos alunos escolherem o que vão estudar via mundo digital, estaremos dando carta branca para que aprendam muito menos. Estaremos produzindo jovens que se divertem bastante no processo educativo, mas que se comunicam pobremente, tornando-se pouco reflexivos, dispersos e consumistas.

A escola sempre foi o momento privilegiado para que o jovem tivesse um contato mais profundo com a literatura, a história, a geografia, a filosofia. Mas, em relação ao tempo e espaço necessários para a reflexão e interiorização dos valores, o computador por vezes mais atrapalha do que facilita, pois tudo isso exige o esforço de uma leitura meditada, pausada e debatida, o exato contrário do que um mero clique de mouse proporciona.

Enxergar no computador a panaceia educacional é um grande perigo. A moda da tecnologia de informação na sala de aula e em casa somente será útil quando tanto os professores quanto os alunos tiverem bons conhecimentos prévios das respectivas matérias, fruto de muita leitura, do estudo pausado e do conteúdo devidamente retido. Quando aprenderem a relacionar as diversas disciplinas e a pensar logicamente. Caso contrário, a nova pedagogia informática poderá estar favorecendo apenas uma nova elite intelectual que, como sempre acontece, englobará uns poucos que, por um motivo ou outro, conseguem aprender de verdade por conta própria.

Publicado por João Malheiro na Gazeta do Povo a 27/2/11